País caminha para a corrosão do sistema de equilíbrio e não para o semipresidencialismo, diz Rubem Barboza

Na disputa de poder, o semipresidencialismo é o regime menos provável, pois imputa mais responsabilidades ao Congresso

Por Paulo Cesar Magella

As recentes derrotas do Governo no Congresso, com aval até de partidos que têm cadeiras na Esplanada dos Ministérios, deram margem a uma série de discussões envolvendo o modelo brasileiro. Com um parlamento mais assertivo, especula-se até mesmo ser um ensaio para o semipresidencialismo, do que discorda o cientista político Rubem Barboza. Ele vai por outro caminho, sinalizando que o que ora ocorre é a corrosão do sistema de equilíbrio entre os poderes da República, “sem uma direção positiva e frutífera”. Na sua avaliação, nenhuma força política oferece um projeto real de futuro para o Brasil: nem a esquerda nem a direita, e nem mesmo um “fantasmagórico” centro político.

Jogo de poder impede a formação de consensos

De acordo com o professor Rubem Barboza, “estamos navegando sem nenhuma bússola. Desse modo, a conjuntura está entregue a um mero jogo de poder, cuja dinâmica impede a construção de consensos mínimos a respeito dos problemas que devemos enfrentar. É muita espuma e pouca substância. Nessa perspectiva, o Congresso adquire um protagonismo especial, que torna a cena política ainda mais improdutiva”, enfatizou.

Controle crescente sobre o Orçamento

Rubem Barboza remete ao Governo Bolsonaro, que deu ao Congresso um controle maior sobre o orçamento: “Ao herdar do governo Bolsonaro um controle crescente sobre o Orçamento, não só nos casos de emendas, o Congresso não só aumentou o seu poder de veto em relação às medidas do Executivo, como aniquila a possibilidade de qualquer visão mais abrangente e eficaz a respeito dos desafios do país. Sem um sistema partidário dotado de um mínimo de coerência, o Congresso age com base em interesses específicos, de seus “clientes” ou daqueles meramente eleitorais. Isso não é semipresidencialismo, mas território para a criação de gangues parlamentares com uma volúpia e estratégias semelhantes às do PCC.”

Não existe discussão sobre o semipresidencialismo

Finalizando, o cientista político enfatizou que “não existe nada de uma discussão sobre o semipresidencialismo como mecanismo de arrefecimento dos conflitos e de produção de consensos. Nem acho que o atual parlamento queira isso, pois isso implicaria responsabilizar o Congresso pela eficácia e pelo sucesso de políticas públicas destinadas a melhorar a vida de todos. Ele não quer responsabilidade nenhuma, apenas um jogo que, ao final, é autodestrutivo em relação ao sistema de qualquer equilíbrio entre os poderes.”

 

 

Paulo Cesar Magella

Paulo Cesar Magella

Sou da primeira geração da Tribuna, onde ingressei em 1981 - ano de fundação do jornal -, já tendo exercido as funções de editor de política, editor de economia, secretário de redação e, desde 1995, editor geral. Além de jornalista, sou bacharel em Direito e Filosofia. Também sou radialista. Meus hobbies são leitura, gastronomia - não como frango, pasmem - esportes (Flamengo até morrer), encontro com amigos, de preferência nos botequins.E-mail: [email protected] [email protected]

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