Com essa frase categórica, o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, afirmou que o ciclo de aglomerações de usuários de crack no centro da capital, um fenômeno urbano que marcou a cidade desde os anos 1990, teria chegado ao fim.
A declaração não apenas encerra uma etapa de operações policiais e ações de assistência social, como também tenta desmontar o símbolo mais emblemático do uso de drogas a céu aberto no Brasil, associado à Rua Helvétia, Praça Princesa Isabel e outros pontos já conhecidos pelos paulistanos.
Da massa compacta ao movimento fragmentado
Segundo o governo estadual, o cenário mudou completamente desde maio, quando o fluxo foi retirado da Rua dos Protestantes. Antes, centenas de usuários se aglomeravam em quarteirões inteiros. Hoje, o que se vê são pequenos grupos dispersos, constantemente em movimento.
Eles passam por viadutos, praças e áreas próximas ao Mercado Municipal, mas não permanecem por muito tempo em um único local, justamente porque a estratégia das forças de segurança é impedir qualquer formação de novas concentrações.
Segurança, saúde e assistência social lado a lado
A operação, segundo o governo, não se limita à repressão policial. Ramuth afirma que o plano envolve monitoramento por câmeras, abordagens acompanhadas por equipes de saúde e assistência social e encaminhamento para tratamento.
O Centro de Cuidados, criado para acolher dependentes químicos, registra, semanalmente, o envio de cerca de 181 pessoas para hospitais, comunidades terapêuticas e outros serviços de saúde. Em 2025, já são mais de sete mil encaminhamentos.
A meta, segundo o vice-governador, é não permitir o reagrupamento do fluxo e dar continuidade ao atendimento após a internação.
O desmonte da estrutura do tráfico
A mudança de cenário não é atribuída apenas à dispersão dos usuários. A desarticulação de pontos do tráfico e da logística criminosa que abastecia o fluxo também foi decisiva.
Investigações enfraqueceram uma célula do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Favela do Moinho, que funcionava como depósito de drogas para abastecer o centro.
A prisão de Leonardo Monteiro Moja, conhecido como “Léo do Moinho”, acusado de comandar o comércio de drogas na região, foi um marco simbólico dessa etapa. A remoção de famílias do Moinho, para evitar a retomada do território por facções, ainda está em andamento.
A nova imagem do centro de São Paulo
A região antes conhecida pelas cenas de consumo e venda de crack agora exibe outro ritmo. Locais que já chegaram a reunir centenas de dependentes químicos estão praticamente vazios.
Um exemplo é a Praça Marechal Deodoro, que recentemente chegou a ter 30 usuários fixos e agora recebe apenas moradores de rua, com a presença constante da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana.
As câmeras de monitoramento mostram que, desde agosto, não há registro significativo de concentração de usuários no entorno da Luz, algo impensável há alguns anos.
A preocupação de especialistas com o “depois”
Apesar da redução visível das aglomerações, profissionais de saúde mental alertam que a internação, por si só, não resolve o problema da dependência química.
Psiquiatras que atuam há décadas no tratamento de usuários de crack no centro afirmam que, sem acompanhamento contínuo, muitos pacientes recebem alta e retornam às ruas.
A Defensoria Pública reforça que, com a dispersão, é mais difícil manter vínculos entre assistentes sociais e dependentes, o que pode prejudicar o tratamento e aumentar a invisibilidade dessas pessoas na cidade.
O centro como território de disputa e transformação
Além das ações policiais e de saúde, há um plano urbanístico em curso: o governo do Estado planeja transferir sua sede administrativa para o centro até 2030. A mudança pode atrair investimentos, revitalizar prédios e aumentar o fluxo de pessoas durante o dia.
Para os defensores dessa medida, reocupar o espaço urbano é parte fundamental para impedir o retorno do fluxo. Quanto mais vida, comércio e presença institucional, menor o espaço para o tráfico e para a instalação de grupos de usuários.
Para eles, o desafio real será manter a rede de assistência e o acompanhamento após a alta. Se essa estrutura falhar, o risco de retorno é grande, mesmo que em um novo formato, mais disperso e menos visível.






