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Vênus tem dados coletados sem querer durante 10 anos

Por Leticia Florenço
28/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Vênus - Reprodução

Vênus - Reprodução

Às vezes, grandes descobertas acontecem por acaso. Foi o que ocorreu com dois satélites meteorológicos japoneses, Himawari-8 e Himawari-9, que, mesmo projetados exclusivamente para observar o clima terrestre, acabaram registrando por engano dados sobre Vênus ao longo de uma década.

Essa observação acidental resultou em um dos conjuntos de dados mais longos e contínuos em infravermelho já registrados sobre o planeta vizinho, revelando fenômenos atmosféricos que até então eram pouco compreendidos.

O objetivo original

Os satélites Himawari foram lançados com um propósito claro: fornecer imagens em tempo real para monitoramento climático e meteorológico do Japão e da Ásia-Pacífico.

Desde seu lançamento, o Himawari-8 em 2014 e o Himawari-9 em 2016, eles observam a Terra a cada 10 minutos, registrando dados sobre furacões, ciclones, tempestades de areia e outras ocorrências atmosféricas.

No entanto, como esses satélites operam em órbita geoestacionária, eles frequentemente capturam imagens de porções do espaço ao redor da Terra, incluindo outros planetas e a Lua. Foi nesse contexto que Vênus passou a aparecer nas imagens.

O que os satélites viram em Vênus?

Mesmo que os satélites não tenham sido calibrados para estudar planetas distantes, os sensores infravermelhos utilizados neles captaram mudanças sutis na intensidade da luz emitida por Vênus. Essa emissão é fundamental para analisar a atmosfera densa e altamente dinâmica do planeta.

Entre os fenômenos detectados estão:

  • Marés térmicas: Oscilações de temperatura causadas pela rotação do planeta e variações na incidência solar.
  • Ondas de Rossby: Padrões de fluxo atmosférico semelhantes aos encontrados na Terra, com papel importante na circulação global de calor e gases.
  • Variações sazonais nas nuvens: Mudanças em larga escala na temperatura e densidade das nuvens venusianas, que compõem uma espessa camada de dióxido de carbono e ácido sulfúrico.

Essas descobertas lançam nova luz sobre a dinâmica atmosférica do planeta e sobre como sua atmosfera retém calor, o que pode ajudar a refinar modelos sobre o efeito estufa extremo de Vênus.

Dez anos de dados

O mais impressionante é que os dados coletados não foram intencionais. As observações de Vênus foram resultado de varreduras automatizadas e rotineiras que acabaram cruzando a trajetória do planeta.

Isso proporcionou um acervo contínuo de imagens e medições de infravermelho, algo que mesmo missões direcionadas a Vênus têm dificuldade em manter ao longo de tanto tempo.

Com esses registros, cientistas agora têm acesso a informações sobre como a atmosfera de Vênus mudou ao longo de diferentes estações solares, oferecendo comparações que antes não eram possíveis com dados esparsos e pontuais.

Publicação científica e novas possibilidades

As descobertas foram formalmente publicadas no periódico científico Earth, Planets and Space, o que legitima e amplia o alcance da pesquisa.

A equipe japonesa responsável já anunciou planos de revisar os dados dos satélites para investigar se registros similares podem ter sido feitos de outros corpos celestes, como Marte, Júpiter e até mesmo asteroides que passaram pelo campo de visão dos instrumentos.

Esse novo uso para os satélites Himawari mostra como tecnologia voltada para a Terra pode, mesmo que acidentalmente, contribuir para a astronomia e a astrofísica.

Vênus

Embora seja o planeta mais parecido em tamanho com a Terra, Vênus continua sendo um enigma. Sua atmosfera sufocante, com temperaturas que ultrapassam os 460 °C e pressão 90 vezes maior que a da Terra, desafia sondas e missões há décadas.

Entender como essa atmosfera funciona é fundamental para diversos campos, desde a climatologia comparativa até a busca por exoplanetas habitáveis.

Essas observações acidentais reforçam como a ciência pode avançar de formas não convencionais. Com dados inéditos e contínuos de Vênus ao longo de uma década, os pesquisadores têm agora mais uma ferramenta para decifrar os mistérios do planeta infernal.

Uma nova fronteira para satélites terrestres?

A experiência dos satélites Himawari levanta uma questão fascinante, será que outros satélites meteorológicos ao redor do mundo também têm, sem saber, registros úteis do espaço profundo? A resposta pode abrir um novo campo de pesquisa na astronomia observacional a partir da Terra.

Com os avanços da inteligência artificial e do processamento de grandes volumes de dados, cientistas agora têm meios para vasculhar os arquivos de satélites não espaciais em busca de pepitas de ouro cósmico, e Vênus é apenas o começo.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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