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Uso de ômega-3 é comum apesar de benefícios contestados

Por Leticia Florenço
07/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Ômega-3 - Reprodução/Unsplash

Ômega-3 - Reprodução/Unsplash

A cápsula de ômega-3 se tornou presença comum na rotina de brasileiros que buscam prevenir doenças e manter a saúde em dia.

Vendido como aliado do coração e do cérebro, o suplemento ganhou popularidade nas últimas décadas, impulsionado por recomendações informais e pelo marketing da indústria de nutracêuticos.

No entanto, pesquisas recentes vêm colocando em dúvida a eficácia do uso generalizado dessas cápsulas.

Especialistas alertam que, para a maioria das pessoas saudáveis, o consumo rotineiro do suplemento pode não trazer os benefícios prometidos. A questão central, segundo pesquisadores, é que o ômega-3 não deve ser visto como uma solução universal.

Diferenças dentro da mesma família

O primeiro ponto de atenção é conceitual. Ômega-3 não é uma única substância, mas um grupo de ácidos graxos.

Entre eles, dois são considerados os mais relevantes do ponto de vista clínico: o EPA (ácido eicosapentaenoico), associado à modulação da inflamação e à saúde cardiovascular, e o DHA (ácido docosahexaenoico), ligado principalmente ao funcionamento do cérebro e da visão.

Embora normalmente apareçam juntos nas cápsulas de óleo de peixe, os dois compostos têm funções distintas no organismo. Por isso, médicos ressaltam que a indicação depende do objetivo terapêutico, da dose utilizada e do perfil do paciente.

Revisões científicas esfriam o entusiasmo

Grandes análises e diretrizes recentes de entidades como o American College of Cardiology indicam que a suplementação de ômega-3, da forma mais comum, com cápsulas compradas sem prescrição, não reduz o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) ou morte cardiovascular na população geral.

Os resultados valem inclusive para doses que variam de 0,5 a 5 gramas por dia. Na prática, isso significa que pessoas sem doença cardiovascular estabelecida ou sem fatores de risco importantes dificilmente terão benefício apenas com o suplemento.

Há uma exceção específica

Formulações farmacêuticas purificadas de EPA, administradas em doses elevadas e sob acompanhamento médico, demonstraram redução de eventos cardiovasculares em pacientes de alto risco, especialmente aqueles com triglicerídeos elevados e já em tratamento com estatinas.

Especialistas destacam que essa situação é bem diferente do uso indiscriminado de cápsulas comuns vendidas em farmácias e lojas de suplementos.

Possíveis riscos entram no radar

Outro ponto que tem chamado atenção da comunidade científica é a segurança do uso em doses altas. Pesquisas recentes associam a suplementação elevada de ômega-3 ao aumento da incidência de fibrilação atrial e a maior tendência a sangramentos em alguns pacientes.

Embora o risco absoluto seja considerado baixo, médicos reforçam que o suplemento não deve ser tratado como totalmente inofensivo, sobretudo quando utilizado sem orientação profissional.

Alimentação segue como principal recomendação

Diante das incertezas sobre a suplementação, a orientação mais consistente continua sendo dietética. Sociedades médicas recomendam o consumo regular de peixes ricos em gordura, como salmão, sardinha, cavala e atum, pelo menos duas vezes por semana.

Essa estratégia fornece naturalmente cerca de 250 miligramas diários de EPA e DHA, quantidade associada a benefícios cardiovasculares quando obtida pela alimentação. Além disso, o peixe oferece proteínas e micronutrientes que não estão presentes nas cápsulas.

Suplementação pode ser considerada em casos específicos

Para vegetarianos, veganos ou pessoas que não consomem peixe, a suplementação pode ser avaliada de forma individualizada. Especialistas lembram que o ômega-3 de origem vegetal (ALA), presente em alimentos como linhaça e chia, é convertido pelo organismo em EPA e DHA de maneira limitada.

Por isso, a decisão de suplementar deve considerar o contexto clínico e, preferencialmente, contar com orientação médica ou nutricional.

Profissionais de saúde alertam que a prevenção cardiovascular eficaz continua baseada em medidas clássicas, como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle da pressão arterial, do colesterol e da glicose, além de acompanhamento médico periódico.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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