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Uso de canetas para emagrecer levanta alerta médico inesperado

Por Leticia Florenço
09/03/2026
Em Mais Tendências, Colunas
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Mounjaro - Reprodução

Mounjaro - Reprodução

Nos últimos anos, medicamentos injetáveis usados para emagrecimento ganharam enorme popularidade no Brasil e no mundo.

As chamadas canetas emagrecedoras, inicialmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2 e obesidade, passaram a ser procuradas também por pessoas que desejam perder peso rapidamente, muitas vezes sem acompanhamento médico.

Entre os fármacos mais conhecidos estão a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, e a tirzepatida, comercializada como Mounjaro. Esses medicamentos atuam imitando hormônios intestinais que regulam o apetite, aumentando a sensação de saciedade e reduzindo a fome.

Embora apresentem bons resultados quando utilizados corretamente, especialistas alertam que o uso indiscriminado pode desencadear efeitos inesperados e potencialmente perigosos.

O surgimento de um novo termo

Médicos brasileiros começaram a observar nas consultas a agonorexia. O termo surgiu nos Estados Unidos e descreve uma condição em que a perda de apetite provocada por medicamentos é tão intensa que passa a se assemelhar ao comportamento observado na anorexia.

Diferentemente do transtorno alimentar clássico, porém, essa situação estaria relacionada diretamente ao efeito farmacológico dos medicamentos que reduzem a fome.

Embora ainda não seja reconhecida oficialmente como diagnóstico clínico, especialistas afirmam que o conceito já serve como alerta para um possível problema emergente na prática médica.

Como funcionam as canetas emagrecedoras

Os medicamentos utilizados nessas canetas pertencem principalmente ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1 ou compostos semelhantes. Essas substâncias agem de três maneiras principais no organismo:

  • Diminuem o apetite ao atuar em áreas do cérebro ligadas à fome;
  • Retardam o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade;
  • Ajudam no controle da glicose no sangue.

Quando prescritos corretamente para pacientes com obesidade ou diabetes, eles fazem parte de um tratamento amplo que inclui acompanhamento médico, mudanças na alimentação e prática de exercícios.

Quando o efeito esperado vira risco

O alerta médico surge quando a redução do apetite se torna excessiva. Em alguns pacientes, a ingestão de alimentos pode cair drasticamente, levando a um consumo calórico muito abaixo do necessário para manter o organismo saudável.

Esse cenário pode provocar sintomas importantes, como fadiga intensa, fraqueza, náuseas persistentes e perda de peso extremamente rápida. Em casos mais graves, o comportamento pode evoluir para padrões que lembram transtornos alimentares.

Especialistas reforçam que o risco aumenta quando os medicamentos são usados sem orientação médica ou quando as doses são elevadas rapidamente, sem o processo gradual conhecido como titulação.

Sinais de alerta observados pelos médicos

Mesmo sem critérios diagnósticos oficiais, profissionais da saúde já identificam sinais que podem indicar um quadro preocupante associado ao uso dessas medicações. Entre eles estão:

  • Perda de peso muito acelerada;
  • Náuseas ou vômitos frequentes;
  • Sensação constante de fraqueza;
  • Isolamento social relacionado à alimentação;
  • Prática excessiva de exercícios físicos;
  • Ansiedade intensa para continuar usando o medicamento.

Esses sinais indicam que o efeito farmacológico pode estar ultrapassando o limite terapêutico esperado.

Complicações físicas possíveis

Além das mudanças comportamentais, o uso inadequado das canetas emagrecedoras pode causar complicações clínicas relevantes.

A perda de peso rápida, por exemplo, aumenta o risco de formação de cálculos biliares, que podem provocar inflamações dolorosas e, em situações mais graves, pancreatite. Essa condição pode evoluir para quadros severos e exigir hospitalização.

Outro problema frequente é a perda de massa muscular. Mesmo quando a redução de gordura é significativa, parte do músculo também é perdida durante o emagrecimento acelerado. Sem exercícios adequados e orientação nutricional, isso pode trazer consequências a longo prazo.

Impactos no envelhecimento da população

Especialistas também chamam atenção para possíveis efeitos futuros. A massa muscular é um dos principais fatores que determinam a qualidade do envelhecimento.

Se um grande número de pessoas perder musculatura de forma precoce por emagrecimento rápido e sem controle, pode surgir nas próximas décadas uma geração com maior risco de sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de força e massa muscular.

Esse cenário poderia aumentar o número de idosos frágeis, com maior risco de quedas, limitações físicas e perda de autonomia.

Perigos de medicamentos manipulados ou irregulares

Outro ponto de preocupação envolve versões manipuladas ou contrabandeadas desses medicamentos.

Sem fiscalização adequada, alguns produtos podem conter concentrações diferentes da substância ativa, o que aumenta a chance de efeitos adversos. Há relatos de análises laboratoriais que encontraram níveis significativamente mais altos do princípio ativo em medicamentos manipulados, potencializando riscos ao paciente.

Além disso, a venda desses produtos fora do ambiente médico, muitas vezes em clínicas estéticas ou pela internet, dificulta o controle da segurança do tratamento.

O papel do acompanhamento médico

Diante desse cenário, especialistas reforçam que as canetas emagrecedoras não são perigosas por si só, mas exigem uso responsável e acompanhamento profissional. Entre as medidas consideradas essenciais estão:

  • Prescrição feita por médico qualificado, preferencialmente endocrinologista;
  • Aumento gradual da dose para reduzir efeitos adversos;
  • Acompanhamento nutricional para garantir ingestão adequada de nutrientes;
  • Prática de exercícios físicos, especialmente treinamento de força;
  • Avaliação psicológica quando houver sinais de comportamento alimentar de risco.

Apesar do entusiasmo em torno desses medicamentos, médicos ressaltam que eles não devem ser encarados como soluções rápidas para emagrecimento estético.

Quando utilizados corretamente, podem representar um avanço importante no tratamento da obesidade e do diabetes. Porém, o uso sem orientação, motivado apenas por resultados rápidos, pode trazer consequências físicas e psicológicas relevantes.

A tecnologia pode ser extremamente útil, mas somente quando aliada a acompanhamento profissional e foco na saúde e não apenas na aparência.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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