Você sente a cabeça girar, como se estivesse em um barco, e já conclui que é labirintite? Essa associação comum, quase automática, pode esconder equívocos perigosos.
Embora o termo esteja popularizado, nem toda tontura tem origem no labirinto — e ignorar isso pode adiar tratamentos essenciais ou até mascarar doenças graves.
Segundo o otorrinolaringologista e especialista em otoneurologia Dr. Murilo Yamada, é comum que pacientes rotulem qualquer forma de desequilíbrio como labirintite.
Mas a realidade clínica é bem mais complexa. “O normal é não sentir tontura. Quando esse sintoma aparece, é sinal de que o corpo está tentando dizer algo”, pontua o médico ao Campo Grande News.
“Labirintite” virou um rótulo genérico — e equivocado
De acordo com o especialista, a labirintite verdadeira é uma condição incomum, geralmente causada por infecções que inflamam o labirinto — estrutura do ouvido interno responsável pelo equilíbrio e audição.
O problema é que, por aqui, qualquer episódio de tontura costuma receber esse rótulo, o que leva a autodiagnósticos imprecisos e tratamentos ineficazes.
Tontura é um sintoma, não um diagnóstico
A palavra “tontura” descreve diversas sensações diferentes — e entender a natureza da percepção é essencial para a investigação médica. O Dr. Murilo destaca quatro grandes tipos:
- Vertigem: sensação de que o ambiente está girando, geralmente associada ao ouvido interno
- Desequilíbrio: dificuldade para manter a estabilidade, com causas neurológicas ou osteomusculares
- Tontura inespecífica: sensação de cabeça leve ou “oco”, muitas vezes ligada à ansiedade ou distúrbios metabólicos
- Pré-síncope: sensação de desmaio iminente, com possíveis origens cardíacas ou vasculares
Quanto mais detalhado for o relato do paciente, maior a chance de se chegar a um diagnóstico preciso.
Quando a tontura pode indicar algo grave?
Nem sempre o sintoma é inofensivo. Há sinais de alerta que devem motivar uma investigação urgente:
- Tontura súbita, intensa e incapacitante
- Fraqueza muscular, perda de coordenação ou da consciência
- Visão dupla, fala arrastada ou dor de cabeça fora do padrão
- Perda súbita de audição ou visão
Nesses casos, causas neurológicas como AVC devem ser consideradas com seriedade.
O papel da otoneurologia: mais que ouvido, é cérebro também
A otoneurologia é a especialidade médica que conecta ouvido interno e sistema nervoso central, com foco em distúrbios do equilíbrio.
O diagnóstico envolve exames clínicos detalhados — como o estudo dos movimentos oculares — e testes específicos, que guiam a abordagem terapêutica.
Segundo Murilo, o tratamento é individualizado e pode incluir desde manobras físicas de reposicionamento até reabilitação vestibular, medicação ou, em casos extremos, cirurgia.
Emoções e hormônios também interferem
Embora “labirintite emocional” não seja um termo médico, o especialista explica que ansiedade e estresse influenciam diretamente o sistema vestibular. “A tontura gera ansiedade, que piora a tontura. É um ciclo. Romper esse padrão é parte do tratamento”, afirma.
Nas mulheres, alterações hormonais como TPM, menopausa e gravidez também podem afetar o labirinto. O ouvido interno tem receptores para estrogênio e progesterona, o que explica a influência do ciclo reprodutivo nos sintomas.
Alimentação, estilo de vida e tecnologia a favor do equilíbrio
Fatores alimentares também fazem diferença. Cafeína, jejum prolongado, açúcar e alimentos industrializados podem ser gatilhos para quem tem predisposição. “Cada organismo reage de forma diferente, mas manter uma rotina alimentar equilibrada ajuda bastante”, recomenda o médico.
O avanço tecnológico tem proporcionado novas ferramentas no combate às tonturas, como neuroestimulação, exames de alta precisão e atuação integrada de fonoaudiólogos, fisioterapeutas, psicólogos e dentistas no tratamento.
Há cura?
Sim. Algumas condições, como a Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB), podem ser resolvidas com manobras terapêuticas simples. Outras, como a doença de Menière ou a enxaqueca vestibular, exigem controle de longo prazo — mas têm tratamento.
“Convivência não precisa ser destino. Podemos restaurar a qualidade de vida na maioria dos casos”, conclui o especialista.
Com informações do portal Campo Grande News.





