No interior de Santa Catarina, tocas e túneis imensos e silenciosos revelam rastros de um passado distante, quando preguiças e tatus de tamanho impressionante percorriam a região.
Essas construções subterrâneas, conhecidas como paleotocas, foram moldadas há milhares de anos por animais que desapareceram há mais de 10 milênios.
Hoje, preservadas dentro de um território reconhecido pela UNESCO, elas oferecem uma rara oportunidade para entender como viviam alguns dos maiores mamíferos que já habitaram o Brasil.
Tocas antigas guardam marcas de preguiças e tatus gigantes
As paleotocas não são simples cavidades. Trata-se de estruturas esculpidas por espécies da megafauna pré-histórica, com dimensões que variam de pouco menos de um metro até túneis largos o suficiente para abrigar veículos.
Algumas chegam a impressionantes 340 metros de comprimento, formando corredores que serpenteiam sob o solo e revelam marcas de garras deixadas pelos antigos escavadores.
Acredita-se que preguiças-gigantes, com porte comparável ao de um elefante e altura de até cinco metros, e tatus gigantes, tão altos quanto o capô de um carro, tenham sido os responsáveis por essas obras naturais.
Localizadas principalmente no território do Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul, essas tocas estão distribuídas por municípios como Morro Grande, Timbé do Sul, Jacinto Machado, Praia Grande e Cambará do Sul.
Embora muitos moradores já conhecessem as entradas dessas estruturas, a origem animal só foi confirmada nos anos 2000, quando estudos passaram a identificar padrões de escavação compatíveis com espécies extintas da Era do Gelo.
Além de abrigos para a megafauna, algumas paleotocas foram reutilizadas por povos indígenas após a extinção desses animais. Registros de pinturas e inscrições rupestres indicam que serviram como moradia temporária, refúgio ou até espaço para rituais.
A ausência de ossadas no interior desses túneis se deve à localização em áreas elevadas e secas, pouco favoráveis à preservação de restos orgânicos.
Tocas em SC estão abertas à visitação e revelam história natural da região
O valor científico e cultural dessas formações vai além da paleontologia. Elas funcionam como verdadeiros arquivos naturais, ajudando a reconstruir o clima e a vegetação da região há milhares de anos.
Naquele período, o Sul de Santa Catarina possuía clima frio e vegetação aberta, cenário ideal para a vida dos gigantes escavadores.
A chegada da Mata Atlântica, há cerca de 11 mil anos, mudou drasticamente o ambiente, levando à redução populacional e eventual desaparecimento dessas espécies.
Atualmente, algumas paleotocas estão abertas à visitação com acompanhamento de guias credenciados.
Para quem busca conhecer de perto a história natural do planeta, caminhar por esses túneis é como atravessar um portal para uma era em que a Terra era habitada por criaturas tão extraordinárias quanto misteriosas.





