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Terra esquenta tanto que África pode rachar em mar

Por Leticia Florenço
17/10/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Derek Keir, Universidade de Southampton/Divulgação - Reprodução

Derek Keir, Universidade de Southampton/Divulgação - Reprodução

O que antes parecia restrito aos livros de geologia hoje pode ser observado em tempo real no Chifre da África.

A região da Junção Tripla de Afar, na Etiópia, tornou-se um laboratório natural onde a separação de placas tectônicas, a abertura de fissuras imensas e a atividade vulcânica revelam a possibilidade de, em milhões de anos, nascer um novo oceano no continente africano.

Esse processo, de magnitude rara, não apenas remodela a geografia local como também amplia o conhecimento científico sobre a dinâmica interna da Terra.

A força invisível que move os continentes

O manto terrestre, aquecido pelo interior do planeta, exerce pressão constante sob a crosta, empurrando as placas tectônicas em direções diferentes. No Afar, esse movimento é ainda mais evidente, já que três riftes se encontram: o da África Oriental, o do Mar Vermelho e o do Golfo de Áden.

O afinamento da crosta faz o magma ascender, cristalizar e abrir rachaduras que podem ser vistas até em imagens de satélite.

A descoberta que mudou a visão dos cientistas

Um estudo publicado na revista Nature Geoscience demonstrou que a separação observada na região tem origem em uma única corrente de magma profundo, que pulsa como um coração geológico. Esses pulsos periódicos provocam surtos de vulcanismo e fraturas, criando um padrão cíclico de transformação.

A comparação de amostras de mais de 130 vulcões revelou assinaturas químicas repetidas entre diferentes riftes, confirmando a origem comum do fenômeno.

No Mar Vermelho, onde a separação ocorre de forma mais rápida, os pulsos percorrem a crosta de maneira regular, ampliando o ritmo da expansão. Já no Rifte Etíope, as rupturas são mais espaçadas, mas igualmente intensas, gerando vales profundos e fissuras colossais.

O cenário é dinâmico e impressiona tanto pela dimensão das rachaduras quanto pela frequência das erupções vulcânicas que remodelam a região.

O nascimento de um novo oceano

O processo atual é comparável ao que, no passado geológico, deu origem ao oceano Atlântico. Se mantido ao longo de milhões de anos, ele pode separar o leste africano do restante do continente, criando inicialmente um mar interior que se conectará ao oceano Índico.

A transformação, inevitavelmente, mudará fronteiras, rotas marítimas e ecossistemas, inaugurando uma nova fase na história geológica do planeta.

O surgimento de um oceano terá grandes impactos. O clima será alterado com novas correntes de vento e padrões de chuva. A biodiversidade encontrará novos habitats costeiros. As nações do leste africano poderão enfrentar mudanças geopolíticas ao se transformarem em ilhas ou penínsulas.

Além disso, a população local conviverá com riscos maiores de terremotos e erupções.

Perguntas que ainda permanecem

Embora muito já tenha sido descoberto, ainda existem questões sem resposta. Os cientistas buscam entender como os pulsos do manto se originam e por que variam de intensidade em cada braço da fenda. Também investigam a velocidade real da abertura e o tempo necessário até que o mar invada as depressões formadas.

O rifteamento de Afar lembra ao mundo que a Terra está em constante transformação. O que hoje é deserto rachado e vulcões ativos, um dia poderá se tornar um oceano azul.

A África Oriental mostra, diante dos nossos olhos, como um continente se reinventa em um processo que ultrapassa gerações humanas, mas reafirma a vitalidade e o poder incessante do planeta em que vivemos.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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