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Serasa revela que 35% da renda de trabalhadores são para consignado

Por Leticia Florenço
06/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Carteira de Trabalho - Reprodução/Unsplash

Carteira de Trabalho - Reprodução/Unsplash

A recente Medida Provisória nº 1.292 trouxe mudanças significativas no modelo de crédito consignado no Brasil, com o objetivo de organizar o setor e aumentar o controle sobre os limites de endividamento dos trabalhadores.

O crédito consignado, por definição, é descontado diretamente da folha de pagamento, o que representa menor risco para as instituições financeiras e, por consequência, taxas de juros geralmente mais baixas.

Contudo, a flexibilização e expansão do acesso a esse tipo de crédito, somada à crise econômica e à alta no custo de vida, fez com que muitos trabalhadores recorressem a essa modalidade de forma recorrente, chegando a comprometer mais de 35% da sua renda mensal, algo que ultrapassa o limite recomendado pelo próprio governo.

Resultados da pesquisa Serasa Experian

Uma pesquisa realizada pela Serasa Experian analisou 2.200 contratos de empréstimo consignado firmados entre 21 de março e 20 de abril, revelando dados alarmantes. Quase 25% dos trabalhadores pesquisados já ultrapassam o teto legal permitido para o desconto em folha.

A situação se torna ainda mais preocupante ao se constatar que aproximadamente 40% dos funcionários de empresas mantêm algum tipo de consignado ativo, sendo que muitos deles têm dois contratos ao mesmo tempo.

Essa prática, segundo as novas regras da medida provisória, é ilegal, mesmo que o trabalhador ainda tenha margem disponível. Isso mostra uma desconexão entre o que está regulamentado e o que ocorre na prática.

Impactos para o trabalhador e para a empresa

O comprometimento elevado da renda mensal com empréstimos significa, para o trabalhador, menos recursos para despesas básicas e menor poder de consumo. Esse cenário pode levar a um ciclo de endividamento contínuo, onde a solução encontrada para resolver uma dívida gera uma nova dívida.

Além disso, o estresse financeiro afeta diretamente a produtividade, o bem-estar e a saúde mental dos profissionais. Para as empresas, o excesso de contratos consignados em sua folha de pagamento representa um desafio operacional.

Em empresas com milhares de colaboradores, é comum a existência de até 4 mil contratos simultâneos, o que exige um controle administrativo rigoroso e sistemas eficazes para não incorrer em falhas ou ilegalidades.

Irregularidades e falhas no cumprimento da nova legislação

Apesar da Medida Provisória nº 1.292 proibir a existência de múltiplos contratos consignados ativos por trabalhador, a pesquisa revelou que 5% dos profissionais ainda mantêm mais de um empréstimo.

Esse descumprimento da legislação indica falhas de fiscalização por parte das instituições financeiras e também fragilidades nos sistemas de controle das empresas. A falta de integração eficiente entre os agentes envolvidos, empregadores, bancos e órgãos reguladores, acaba permitindo brechas que favorecem esse tipo de irregularidade.

Além disso, o desconhecimento ou a má interpretação da nova medida por parte de trabalhadores e gestores contribui para a perpetuação desses problemas.

Efeitos macroeconômicos do superendividamento

O elevado nível de endividamento por consignados, embora represente uma solução rápida e prática no curto prazo, pode ter efeitos negativos sobre a economia como um todo. O comprometimento excessivo da renda reduz o consumo das famílias, que é uma das principais forças motrizes da economia brasileira.

Além disso, aumenta o risco de inadimplência futura, mesmo em uma modalidade de crédito considerada mais segura. Para o sistema financeiro, isso representa uma distorção no perfil de risco dos clientes e pode gerar efeitos em cadeia, afetando inclusive a concessão de crédito para outros setores.

Se não houver um controle mais eficaz, o crédito consignado pode deixar de ser um mecanismo de apoio e passar a ser um fator de colapso para milhões de trabalhadores.

Caminhos para corrigir o cenário

Diante desse quadro, é necessário repensar estratégias e reforçar ações de educação financeira. É preciso que os trabalhadores compreendam os riscos de comprometer grande parte de sua renda com dívidas automáticas e saibam avaliar a real necessidade de um consignado.

Do lado das empresas e instituições financeiras, é fundamental investir em sistemas de controle integrados que alertem sobre o excesso de contratos e impeçam a assinatura de novos acordos quando o limite legal estiver ultrapassado.

Também é urgente ampliar o papel dos órgãos reguladores na fiscalização e penalização de práticas irregulares. A revisão das regras e a criação de mecanismos de renegociação acessíveis podem ajudar a reequilibrar as finanças dos trabalhadores mais endividados.

O momento é de atenção e responsabilidade: é preciso garantir que o crédito seja um aliado, e não um vilão, na vida do trabalhador brasileiro.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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