A condenação de Sheikh Hasina à morte marcou um dos episódios mais tensos da história recente de Bangladesh. Após meses de audiências, o tribunal concluiu que a ex-premiê cometeu crimes contra a humanidade durante a violenta repressão aos protestos estudantis de 2024.
Segundo os juízes, ela teria ordenado ações letais contra manifestantes, incluindo execuções sumárias, uso de helicópteros armados, disparos indiscriminados e operações que resultaram em milhares de feridos.
A decisão, embora aguardada por parte da população, mergulhou o país em um clima de insegurança. Explosões de bombas caseiras, veículos incendiados e ameaças de novos confrontos mostraram que o veredito não encerra o conflito político, mas o intensifica.
Quem é Sheikh Hasina
Sheikh Hasina não é apenas uma ex-primeira-ministra; ela é uma peça central na construção da identidade nacional do país. Filha de Sheikh Mujibur Rahman, líder da independência e considerado o “Pai da Nação”, Hasina cresceu imersa nas disputas políticas que moldariam o Estado bengalês.
O trauma familiar, após o golpe militar de 1975 que matou seus pais e irmãos, a empurrou para o exílio. Mesmo distante, tornou-se símbolo da resistência à ditadura e, ao retornar em 1981, assumiu a liderança da Liga Awami, herdeira do legado de seu pai.
Sua ascensão ao poder era vista como a restauração de uma linhagem histórica interrompida pela violência.
Sua trajetória no poder
Hasina governou Bangladesh em dois grandes ciclos, de 1996 a 2001 e, especialmente, de 2009 a 2024. Ao longo desses 15 anos ininterruptos, o país vivenciou crescimento econômico acelerado, expansão da indústria têxtil e melhorias em indicadores sociais.
Sob seu comando, Bangladesh foi frequentemente citado como exemplo de desenvolvimento no sul da Ásia.
Mas a prosperidade veio acompanhada de acusações de autoritarismo. Organizações de direitos humanos denunciaram prisões arbitrárias, perseguição à oposição, sufocamento da imprensa e uso de leis cibernéticas para controlar críticas nas redes sociais.
Para muitos analistas, Hasina transformou o Estado em um regime de partido único, blindado por instituições alinhadas ao governo.
A revolta estudantil de 2024
Embora tenha resistido a inúmeros protestos ao longo dos anos, a onda de levantes estudantis em 2024 foi diferente. Inspirada pela Geração Z e organizada por meio das redes sociais, a mobilização ganhou força nacional. As manifestações denunciavam corrupção, violência policial e exigiam novas eleições transparentes.
O tribunal afirma que foi nesse momento que Hasina ordenou ações brutais com o objetivo de esmagar o movimento. Estimativas indicam cerca de 1.400 mortos e mais de 25 mil feridos durante semanas de confronto, números que chocaram a comunidade internacional.
A perda de apoio político, somada à pressão popular, culminou em sua destituição e fuga para a Índia, onde permanece em exílio autoimposto.
O que levou à pena de morte
Hasina enfrentou cinco acusações principais, entre elas:
- Incitação ao assassinato de manifestantes;
- Ordem de enforcamento de opositores;
- Uso autorizado de drones e helicópteros armados contra multidões;
- Repressão violenta comandada por forças de segurança;
- Operações que resultaram em mortes em larga escala.
O tribunal classificou tais ações como crimes contra a humanidade. A defesa, porém, afirma que não houve imparcialidade no processo e que a condenação já estava definida desde o início.
O exílio, o silêncio e a revolta dos aliados
Desde que fugiu para a Índia, Hasina não retornou a Bangladesh, tampouco compareceu pessoalmente ao tribunal. Líderes de seu partido, a Liga Awami, agora proibida de atuar politicamente, dizem que o julgamento é uma perseguição política motivada para afastá-la definitivamente da cena eleitoral.
Muitos de seus familiares e antigos ministros também vivem no exterior, temendo represálias ou detenções.
O país atualmente é governado por um gabinete interino liderado pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus. Para ele, os julgamentos são necessários para restabelecer a confiança institucional e responsabilizar autoridades por abusos.
Yunus afirma que Bangladesh vive um momento decisivo, ou rompe com a impunidade histórica, ou permanece preso em ciclos de violência política. Entretanto, críticos alertam que a execução de uma figura tão central pode gerar instabilidade ainda maior, especialmente com eleições previstas para fevereiro.
O futuro incerto de Bangladesh
A condenação de Sheikh Hasina representa mais do que um desfecho jurídico; ela abre uma disputa pelo próprio projeto de país. Seus apoiadores enxergam a decisão como vingança política. Seus detratores acreditam que é um marco contra o autoritarismo. O povo, no meio do fogo cruzado, teme que o caos político se intensifique.
Com o legado do “Pai da Nação” no centro do debate, Bangladesh enfrenta um momento delicado, no qual a justiça, a memória histórica e o futuro democrático se cruzam em uma encruzilhada perigosa.





