A cidade de Gramado, na Serra Gaúcha, há tempos ocupa um lugar especial na memória afetiva e no roteiro turístico dos brasileiros. Com seus jardins inspirados na Europa, arquitetura charmosa, festivais tradicionais e gastronomia de excelência, o destino se transformou em uma vitrine do turismo nacional.
Porém, por trás da aparência encantadora, surgem sinais de exaustão e desequilíbrio. O crescimento desordenado, a multiplicação de empreendimentos e a saturação de serviços acendem um alerta importante, e esse alerta ganhou um dos maiores nomes do turismo no país.
Guilherme Paulus, fundador da CVC, maior operadora de turismo do Brasil, declarou apoio público às medidas adotadas pela prefeitura de Gramado para frear o crescimento urbano e turístico desenfreado da cidade.
Em entrevista ao podcast Nossa Economia e antecipando sua participação no Fecomércio-RS Debate, Paulus destacou que a expansão acelerada, se não for contida, pode prejudicar seriamente a qualidade do turismo e a imagem do destino.
Um olhar experiente sobre o futuro do turismo gaúcho
Paulus defende que o momento exige prudência e planejamento. Segundo ele, Gramado e Canela caminham para atingir, nos próximos anos, a marca de 50 mil leitos disponíveis, um número considerado insustentável, tanto pela demanda quanto pela infraestrutura urbana.
A superoferta já estaria provocando uma queda na taxa de ocupação, comprometendo a rentabilidade do setor e gerando uma concorrência predatória.
Na visão do empresário, a saída está na diversificação geográfica da atividade turística no Rio Grande do Sul. Em vez de concentrar esforços em um único polo, Paulus propõe a valorização de outras regiões com grande potencial, como o Litoral Norte, Pelotas, a Campanha Gaúcha e as Missões.
Ele destaca que o Estado tem uma riqueza de experiências a oferecer além da tradicional rota da uva e do vinho, e que o turismo pode ser uma alavanca importante para a recuperação econômica após as enchentes de 2024.
Multipropriedades
Um dos pontos mais contundentes da entrevista de Guilherme Paulus foi a crítica direta ao modelo de multipropriedade, a prática de vender cotas de um mesmo imóvel para dezenas de proprietários, permitindo o uso por períodos limitados ao longo do ano.
O empresário considera o sistema insustentável e enganoso. Segundo ele, o excesso de donos por unidade, aliado a promessas irreais de rendimento e uso contínuo, gera frustração, inadimplência e processos judiciais.
Paulus comparou a situação a antigos casos de fracasso registrados em cidades como Caldas Novas e até Miami, onde hotéis multipropriedade se tornaram estruturas abandonadas, um verdadeiro “cemitério imobiliário”.
Ele elogiou a postura da prefeitura de Gramado ao não apenas restringir novos empreendimentos nesse modelo, como também proibir abordagens agressivas de turistas nas ruas para vendas forçadas de cotas.
A reconstrução após a tragédia climática
O turismo gaúcho ainda sofre os efeitos da enchente histórica que atingiu o Estado em 2024. Paulus descreveu uma retração profunda no setor: eventos cancelados, voos reduzidos, ocupação despencando e o cancelamento em massa de reservas.
A taxa de ocupação, que deveria estar acima dos 30% na alta temporada, mal alcançou os 20% em julho de 2025. O aeroporto de Caxias do Sul, um dos principais da região serrana, passou de 10 voos diários para apenas um por dia.
Diante desse cenário, o empresário defende ações coordenadas para reconstruir o turismo como motor econômico. Uma das propostas é a criação de um roteiro integrado entre Serra, Litoral e Porto Alegre, com o objetivo de estimular o fluxo de visitantes por diferentes regiões e prolongar o tempo médio de permanência.
Segundo estudo da FGV citado por Paulus, cada real investido em promoção turística injeta vinte reais na economia nacional, o que torna a recuperação do setor uma estratégia de alto impacto econômico.
Cultura e grandes atrações como estratégia de recuperação
Paulus também revelou projetos ambiciosos para reforçar a atratividade da Serra Gaúcha por meio da cultura e dos grandes eventos. Entre eles, a tentativa de transformar o Festival de Cinema de Gramado em um evento de dimensão internacional.
Um convite foi enviado ao cineasta Francis Ford Coppola, diretor da trilogia O Poderoso Chefão, cuja presença poderia marcar uma nova era para o festival.
Outro desejo é trazer o tenor Andrea Bocelli para uma apresentação histórica no Lago Negro, durante o Natal Luz.
Essas propostas, além de impactarem diretamente a imagem turística da cidade, buscam resgatar o prestígio de Gramado como um centro de experiências únicas, emocionais e memoráveis, e não apenas como um polo hoteleiro saturado.
O turismo, quando feito com consciência e visão de longo prazo, é capaz de gerar empregos, movimentar a economia e preservar o que há de melhor em cada lugar. Quando guiado apenas por ganância e crescimento desenfreado, pode matar exatamente o que o torna atraente.





