O crescimento no uso de medicamentos injetáveis conhecidos como “canetas emagrecedoras” já começa a produzir efeitos que vão além da saúde individual dos pacientes.
Um novo levantamento do Instituto Locomotiva indica que o fenômeno está provocando mudanças relevantes no padrão de consumo alimentar das famílias brasileiras, com impacto direto em supermercados, aplicativos de delivery e, principalmente, no setor de restaurantes.
A pesquisa aponta que a redução do apetite, um dos principais efeitos associados ao uso dessas substâncias, tem levado muitos consumidores a comer menos fora de casa e a repensar completamente seus hábitos alimentares.
Mudança de comportamento já atinge o consumo fora de casa
Os dados mostram uma transformação significativa no cotidiano de quem convive com usuários das canetas emagrecedoras. Em cerca de 61% dos domicílios onde há pacientes em tratamento, houve alteração perceptível no padrão de consumo alimentar.
Entre os principais impactos observados estão:
- 24% reduziram gastos em mercados e atacados
- 55% diminuíram o uso de aplicativos de delivery
- 47% passaram a frequentar menos restaurantes
Esses números indicam uma queda consistente na demanda por alimentação fora do lar, um dos pilares do setor de food service.
Menos apetite, menos consumo e novas escolhas alimentares
A principal explicação para essa mudança está ligada ao efeito fisiológico do medicamento: a redução do apetite.
Em 8 a cada 10 domicílios com usuários, os entrevistados relataram diminuição significativa da fome, o que naturalmente leva a uma menor ingestão de alimentos e a uma reorganização das rotinas alimentares.
Além da redução geral do consumo, a pesquisa também identificou uma mudança qualitativa na dieta desses consumidores, com maior foco em alimentos considerados mais saudáveis:
- 30% aumentaram o consumo de proteínas magras
- 26% passaram a consumir mais frutas e vegetais
- 25% elevaram a ingestão de alimentos integrais
- 22% aumentaram o consumo de água e chás sem açúcar
Esse movimento sugere não apenas uma redução de volume, mas uma reestruturação do tipo de alimento consumido.
Impacto direto no setor de restaurantes e delivery
O setor de alimentação fora do lar é um dos mais afetados por essa mudança de comportamento. A redução da frequência em restaurantes e o menor uso de serviços de entrega indicam uma possível reconfiguração do mercado.
Com consumidores com menor apetite e mais seletivos, restaurantes podem enfrentar:
- Queda no número de pedidos individuais
- Redução no ticket médio por cliente
- Maior dificuldade em manter consumo recorrente
- Aumento da busca por porções menores ou compartilhadas
Essa tendência também pressiona plataformas de delivery, que já vinham enfrentando mudanças no comportamento pós-pandemia.
Alterações no estilo de vida e novas prioridades alimentares
Além da redução do consumo, o estudo também revela uma mudança mais ampla no estilo de vida dos usuários e seus domicílios. A tendência aponta para maior atenção à qualidade dos alimentos e menor dependência de produtos industrializados ou de conveniência.
Esse comportamento inclui:
- Menor consumo de ultraprocessados
- Redução de bebidas açucaradas
- Maior busca por alimentos naturais e leves
- Aumento da hidratação e substituição de bebidas calóricas
Essas mudanças reforçam a ideia de uma reeducação alimentar involuntária impulsionada pelo tratamento.
Metodologia da pesquisa
O levantamento foi realizado pelo Instituto Locomotiva entre os dias 3 e 9 de fevereiro de 2026. Foram ouvidas 1.004 pessoas em todo o Brasil, por meio de questionário digital de autopreenchimento.
A amostra foi ponderada com base em critérios de região, gênero, idade e renda, seguindo o perfil da população brasileira conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD).
Um mercado em transição
O avanço das canetas emagrecedoras e seus efeitos colaterais comportamentais colocam o setor de alimentação diante de um novo cenário. Restaurantes, mercados e plataformas digitais passam a lidar não apenas com mudanças econômicas, mas com uma transformação profunda no próprio ato de consumir comida.
O resultado é um mercado em adaptação, que começa a observar um consumidor menos impulsivo, mais seletivo e com menor volume de consumo, um desafio que pode redefinir estratégias de cardápio, porções e modelos de negócio nos próximos anos.





