A declaração do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a audiência de custódia no Supremo Tribunal Federal reacendeu uma discussão importante: até que ponto determinados medicamentos podem alterar a percepção da realidade?
Ao relatar que acreditou haver uma escuta instalada em sua tornozeleira eletrônica, ideia que descreveu como uma “alucinação”, Bolsonaro atribuiu o episódio ao uso de dois fármacos: pregabalina e sertralina.
Embora ambos sejam amplamente prescritos para quadros ansiosos, depressivos ou de dor crônica, a combinação e o contexto clínico podem, em situações específicas, gerar efeitos neuropsicológicos inesperados.
O que são pregabalina e sertralina e por que são usados juntos?
A pregabalina, apesar de classificada como anticonvulsivante, é mais conhecida hoje pelo seu uso em ansiedade generalizada e dores neuropáticas. Seu mecanismo atua regulando impulsos nervosos excessivamente intensos, o que reduz a excitabilidade entre neurônios.
Já a sertralina pertence ao grupo dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, medicamentos essenciais no tratamento da depressão e de transtornos de ansiedade.
Em muitos casos, psiquiatras combinam ambos os remédios para potencializar o controle dos sintomas, especialmente quando há sofrimento emocional associado a dores físicas persistentes.
A combinação pode alterar a mente? Entendendo o risco da hiponatremia
Segundo especialistas, o ponto mais sensível dessa associação é o risco de hiponatremia, queda de sódio no sangue. Embora esse efeito seja possível com qualquer antidepressivo da classe da sertralina, a pregabalina pode aumentar essa probabilidade em certos grupos, como idosos ou pacientes vulneráveis à desidratação.
Quando o sódio cai, o cérebro pode reagir de forma imprevisível, e sintomas como náuseas, dor de cabeça, dificuldade de concentração, sonolência, confusão mental e até alucinações podem surgir.
Apesar disso, trata-se de um efeito reversível e possível de identificar rapidamente com exames de sangue.
Alucinações são raras
Ainda que a hiponatremia seja um caminho para alterações de percepção, a sertralina também carrega, por si só, um pequeno risco de desencadear alucinações e agitação, geralmente inferior a 2% dos usuários.
O efeito aparece com maior frequência nas primeiras semanas de tratamento ou quando há mudanças bruscas de dosagem. A pregabalina, por sua vez, pode causar desorientação ou confusão, efeitos pouco comuns, mas mais prováveis nos períodos iniciais do uso ou em situações de fragilidade física.
Quando esses medicamentos são iniciados simultaneamente, o organismo pode enfrentar um período de adaptação mais intenso.
O contexto clínico importa tanto quanto o medicamento
Efeitos neuropsicológicos de remédios não podem ser analisados isoladamente: idade, estado geral de saúde, hidratação, outros medicamentos em uso, noites mal dormidas e condições emocionais prévias influenciam diretamente a resposta do organismo.
Psiquiatras destacam que pessoas em situações de estresse agudo, como momentos de pressão intensa, privação de sono ou condições médicas súbitas, tendem a reagir de forma mais sensível a determinados fármacos.
Por isso, qualquer sinal de alteração mental deve ser comunicado imediatamente ao médico responsável.
Até onde vai a ação dos remédios e onde começam os fatores externos?
A discussão pública sobre o relato de Bolsonaro evidencia um ponto crucial: embora medicamentos possam gerar efeitos adversos, especialmente no início do tratamento, cada caso deve ser avaliado com cautela.
É possível que a combinação de pregabalina e sertralina cause confusão ou percepção distorcida em circunstâncias específicas. No entanto, fatores psicológicos, emocionais e situacionais também exercem papel importante.
A confirmação do que desencadeou o episódio depende de avaliação clínica completa, análise de exames e acompanhamento médico contínuo.





