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Redes sociais podem ser responsabilizadas por vício de crianças

Por Leticia Florenço
04/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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As redes sociais passaram a enfrentar um novo tipo de questionamento jurídico com a possibilidade de serem responsabilizadas por supostamente estimular dependência em crianças e adolescentes.

Nos Estados Unidos, o tema já mobiliza ações movidas por famílias e governos locais contra gigantes da tecnologia, sob a acusação de que seus produtos foram desenhados para maximizar o tempo de uso entre menores.

Entre as empresas citadas em processos estão a Meta, a Google e a ByteDance. As ações associam o uso intensivo das plataformas a impactos negativos na saúde mental de jovens, incluindo ansiedade, compulsão e exposição a conteúdos inadequados.

Legislação brasileira abre brechas

Embora não haja norma específica sobre “vício digital”, juristas ouvidos por entidades do setor avaliam que o ordenamento jurídico brasileiro permite esse tipo de discussão.

O Código de Defesa do Consumidor (CDC) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelecem deveres amplos de segurança e proteção que podem alcançar serviços digitais.

Na avaliação de especialistas em direito do consumidor, a responsabilização pode ocorrer se forem comprovados três elementos: potencial danoso do serviço, falha na prestação e prejuízo ao usuário menor de idade.

O entendimento é que crianças e adolescentes são considerados consumidores hipervulneráveis, o que eleva o dever de cautela das empresas.

Design das plataformas entra na mira

Um dos focos das discussões é o chamado “design viciante”. Recursos como rolagem infinita, reprodução automática de vídeos e notificações constantes são apontados por especialistas como mecanismos que incentivam o uso prolongado.

Para entidades de defesa do consumidor, o modelo de negócio das plataformas, baseado em engajamento e coleta de dados, pode entrar em choque com a legislação brasileira quando envolve menores. A crítica central é que o aumento do tempo de tela amplia a exposição à publicidade direcionada e a riscos digitais.

ECA Digital reforça dever de proteção

A entrada em vigor do chamado ECA Digital tende a fortalecer esse debate. A norma impõe às empresas de tecnologia o dever de adotar medidas concretas para proteger crianças e adolescentes no ambiente online.

Entre as exigências estão a implementação de barreiras para conteúdos impróprios, mecanismos eficazes de verificação etária e configurações padrão que reduzam o uso compulsivo por menores.

Especialistas avaliam que a nova regra pode servir como fundamento para futuras ações judiciais.

Primeiras ações ainda são raras

Em 2024, o Instituto Defesa Coletiva protocolou duas ações relevantes no país, uma contra a Meta e outra contra a ByteDance e empresa ligada ao Kwai. Os processos pedem indenização bilionária por danos morais coletivos e a adoção de mecanismos mais rígidos de proteção infantil.

As petições sustentam que pesquisas científicas já indicam maior suscetibilidade do cérebro em formação à dependência provocada por recompensas rápidas típicas das redes sociais.

Apesar disso, a Justiça de Minas Gerais extinguiu as ações sem análise do mérito por entender que a entidade não tinha legitimidade para propor a demanda. O caso ainda está em discussão no tribunal.

Precedente do STF pode influenciar

O entendimento do Supremo Tribunal Federal é visto como peça-chave para o futuro do tema. A Corte já reconheceu a responsabilidade civil de plataformas em situações envolvendo crimes contra crianças e adolescentes.

Na leitura de especialistas, esse precedente pode abrir espaço para questionamentos mais amplos, inclusive sobre o próprio modelo de funcionamento das redes sociais e seus efeitos sobre a saúde mental de menores.

Embora a proteção prioritária recaia sobre crianças e adolescentes, parte da comunidade jurídica sustenta que a lógica do CDC pode permitir discussões semelhantes envolvendo usuários adultos.

Ainda assim, há consenso de que menores merecem tutela reforçada por estarem em fase de desenvolvimento, o que aumenta a pressão regulatória sobre as empresas de tecnologia.

O debate sobre responsabilidade das redes sociais por possível dependência digital ainda está em estágio inicial no Brasil, mas sinais apontam para crescimento da discussão.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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