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Quase 25% da alimentação dos brasileiros já vem de ultraprocessados

Por Leticia Florenço
21/11/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Alimentos Ultraprocessados - Reprodução/Unsplash

Alimentos Ultraprocessados - Reprodução/Unsplash

O consumo de ultraprocessados no Brasil atingiu um patamar que acende sinais de alerta entre especialistas.

Os estudos publicados pela revista The Lancet, conduzidos por pesquisadores da USP e de mais de 40 instituições internacionais, mostram que esses produtos já representam 23% da alimentação nacional, mais que o dobro do registrado nos anos 80.

Essa transformação profunda não se limita ao Brasil: ela faz parte de um movimento global que está redesenhando hábitos, culturas e, sobretudo, a saúde das populações.

Um fenômeno que ultrapassa fronteiras

O levantamento analisou dados de 93 países, revelando que quase todos registraram aumento consistente no consumo de ultraprocessados nas últimas décadas.

No Reino Unido, os índices permanecem estáveis em 50%, enquanto nos Estados Unidos ultrapassam 60% da dieta. Outras nações, como Espanha, Coreia do Norte e China, experimentaram crescimento acelerado, com consumo triplicado ao longo de 30 anos.

As diferenças regionais existem, mas a tendência é quase universal.

Marketing agressivo e o poder corporativo

Os pesquisadores destacam que esse crescimento não ocorre por acaso: é impulsionado por grandes corporações globais que lucram fortemente com esses produtos.

A combinação de ingredientes baratos, embalagens atrativas, forte publicidade e lobby político favorece um cenário em que alimentos ultraprocessados se tornam onipresentes.

Segundo Carlos Monteiro, líder do estudo, essas empresas moldam dietas e interferem diretamente nas decisões de saúde pública, dificultando o avanço de políticas que promovam uma alimentação saudável.

Renda, cultura e padrões desiguais de alimentação

O aumento dos ultraprocessados avança de forma desigual entre diferentes países e classes sociais. Nações de alta renda já apresentavam índices elevados, enquanto países de renda média e baixa viram saltos significativos.

Dentro de cada país, o processo se repete: inicialmente mais consumidos por grupos de maior renda, os ultraprocessados se espalham para outros públicos com o tempo. Ainda assim, elementos culturais desempenham papel importante.

Canadá registra 40%, enquanto Itália e Grécia, apesar da renda semelhante, permanecem abaixo de 25%, graças a tradições culinárias mais preservadas.

Do pós-guerra ao auge da globalização

O consumo crescente desses alimentos tem raízes históricas. Após a Segunda Guerra Mundial, produtos industrializados surgiram como alternativa prática. A partir dos anos 80, com a globalização, o acesso e a oferta se ampliaram de forma exponencial.

Esse movimento coincidiu com o aumento global da obesidade, diabetes tipo 2, câncer colorretal e doenças inflamatórias intestinais, reforçando a associação entre ultraprocessados e piora da saúde populacional.

A revisão feita pelos pesquisadores analisou 104 estudos de longo prazo, e 92 deles apontaram relação direta entre o consumo de ultraprocessados e o desenvolvimento de doenças crônicas.

Entre os principais efeitos estão ingestão excessiva de calorias, pior qualidade nutricional, maior exposição a aditivos químicos e elevação dos riscos de doenças cardiovasculares, metabólicas e oncológicas.

Para os especialistas, os resultados deixam claro que esses produtos contribuem significativamente para a carga global de doenças relacionadas à alimentação.

Como funciona a classificação dos alimentos

A classificação NOVA, criada em 2009 por pesquisadores brasileiros, divide os alimentos de acordo com o grau de processamento. Os ultraprocessados, grupo 4, são formulações industriais com ingredientes de baixo custo e aditivos diversos, pensados para serem altamente duráveis, práticos e muito palatáveis.

Exemplos incluem biscoitos recheados, refrigerantes, macarrão instantâneo e iogurtes artificiais. Essa classificação ajuda a compreender como o processamento interfere tanto na composição nutricional quanto nos efeitos sobre a saúde.

Um setor trilionário que molda hábitos globais

Os autores destacam que os ultraprocessados não dominam o mercado por escolhas individuais, mas por estruturas comerciais gigantescas.

O setor movimenta cerca de US$ 1,9 trilhão por ano, permitindo que as empresas ampliem sua influência política, controlem parte das decisões regulatórias e utilizem estratégias que direcionam o consumo mundial.

Embalagens chamativas, marketing infantil, influenciadores digitais e campanhas constantes consolidam a presença desses produtos no cotidiano.

Propostas urgentes para conter o avanço

Os especialistas apresentam uma série de recomendações para reduzir o consumo desses produtos.

Entre elas, rotulagem obrigatória e clara sobre aditivos químicos, proibição de ultraprocessados em escolas e hospitais, restrições severas à publicidade infantil e taxação de determinados produtos para subsidiar alimentos frescos para famílias de baixa renda.

O Brasil é citado como exemplo positivo pela política do PNAE, que determina que 90% dos alimentos ofertados nas escolas públicas sejam frescos ou minimamente processados a partir do próximo ano.

Resgatar a comida de verdade como prioridade global

Os pesquisadores reforçam que o aumento do consumo de ultraprocessados não é falha individual, mas consequência direta de um sistema alimentar dominado por interesses corporativos.

Embora novas pesquisas ainda estejam em andamento, o conjunto das evidências já é robusto o suficiente para embasar políticas públicas imediatas.

Eles defendem que restaurar dietas baseadas em alimentos integrais, frescos e preparados de forma tradicional é uma ação urgente para proteger a saúde global e reduzir a incidência de doenças crônicas associadas à alimentação.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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