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Provedoras de internet precisam pagar 60% das contas para facções

Por Leticia Florenço
17/03/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Em fevereiro, pelo menos dois carros ligados a operadoras de internet foram alvos de ataques em Fortaleza
Foto: Reprodução

Em fevereiro, pelo menos dois carros ligados a operadoras de internet foram alvos de ataques em Fortaleza Foto: Reprodução

Nos últimos dias, o Ceará tem sido palco de uma série de ataques a provedores de internet, especialmente na região metropolitana de Fortaleza, que tem trazido à tona um fenômeno preocupante e crescente: o envolvimento das organizações criminosas no controle do setor de telecomunicações.

Essas facções, que antes dominavam outros mercados, agora exigem até 60% das receitas das provedoras para permitir a continuidade de suas operações. Esse cenário coloca em risco a sobrevivência de muitos pequenos negócios e ameaça afetar diretamente os consumidores, que podem sentir os efeitos em suas faturas de internet.

Domínio criminoso sobre as provedoras de internet

Há duas semanas, ataques a provedores de internet em locais como Pecém e São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza, evidenciaram a crescente presença de facções criminosas nesse setor.

De acordo com fontes do setor, as organizações exigem até 60% das receitas das provedoras em troca de proteção para que as empresas possam operar em determinadas regiões. Além das ameaças financeiras, os ataques físicos incluem a destruição de equipamentos, carros queimados e lojas vandalizadas.

Em apenas um período de 20 dias, os prejuízos acumulados pelas provedoras menores ultrapassaram os R$ 500 mil, e muitos empresários relatam um ambiente de medo, insegurança e estresse psicológico, com funcionários e empresários convivendo com o temor constante de represálias.

Impacto nas pequenas provedoras de internet

Com o crescimento da demanda por serviços de internet no Ceará, muitas provedoras locais conseguiram se estabelecer em regiões mais afastadas, oferecendo pacotes a preços mais acessíveis, atendendo a populações carentes e dificultando o acesso das grandes operadoras a essas localidades.

Contudo, a atuação das facções está colocando em risco esse modelo de negócio, que depende de investimentos significativos em infraestrutura de tecnologia, como fibra ótica e equipamentos especializados.

Essas pequenas empresas, em sua maioria, operam de forma independente, autofinanciando suas próprias redes e adquirindo equipamentos com o lucro gerado pelos clientes.

Esse modelo de negócios, apesar de ser uma fonte importante de empregos e desenvolvimento local, não conta com o suporte de grandes bancos ou instituições financeiras para recuperação em caso de crise. Isso torna as pequenas provedores mais vulneráveis a ataques e prejuízos, o que pode resultar em um grande número de falências no setor.

Consequências para os consumidores

Um dos maiores desafios que essa crise pode gerar é a elevação dos preços dos serviços de internet. Especialistas apontam que, apesar da maioria das provedoras tentar evitar o repasse dos custos ao consumidor, a realidade econômica pode forçar as empresas a aumentarem suas tarifas para cobrir os prejuízos.

Isso impactaria principalmente as famílias de baixa renda, que dependem dos pacotes mais acessíveis para ter acesso à educação, saúde e outras áreas essenciais. Se a tendência continuar, a falta de concorrência no setor e o aumento dos preços podem criar um cenário onde o acesso à internet se torne ainda mais desigual, prejudicando as populações que mais necessitam.

Reação das autoridades e as possíveis soluções

O governo e as autoridades locais, como a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), têm acompanhado a situação, mas ainda não houve medidas significativas para resolver o problema de forma efetiva.

A prisão de líderes de facções criminosas envolvidos diretamente nos ataques foi um avanço, mas especialistas alertam que, sem uma ação coordenada e mais robusta, o domínio das facções sobre as provedores de internet pode continuar a crescer.

A Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint) e a União dos Provedores do Ceará (Uniproce) expressaram solidariedade com as vítimas e reafirmaram o compromisso de continuar oferecendo serviços de qualidade à população cearense, mas destacam a necessidade urgente de um ambiente mais seguro para que as empresas possam operar com tranquilidade.

Um modelo de apoio mais eficaz das autoridades, com medidas de segurança pública mais fortes e estratégias de combate à criminalidade no setor, é essencial para que as provedoras de internet possam continuar oferecendo seus serviços sem temer represálias.

Futuro das provedoras de internet no Ceará

O setor de telecomunicações no Ceará enfrenta um momento de grande incerteza. Com um mercado crescente, a presença das facções criminosas é uma ameaça clara ao desenvolvimento e à estabilidade econômica do setor.

As pequenas provedoras, que geram empregos diretos e contribuem para o crescimento econômico regional, estão particularmente vulneráveis e correm o risco de desaparecer diante dessa pressão.

Se não forem implementadas soluções eficazes, como maior segurança para os empresários e apoio financeiro para as empresas em dificuldades, o mercado de telecomunicações poderá sofrer um colapso, prejudicando os consumidores e aprofundando as desigualdades de acesso à internet no estado.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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