Enquanto empresas reforçam o controle sobre a produtividade dos funcionários, muitos profissionais estão fazendo exatamente o oposto do que seus gestores esperam: procuram emprego durante o expediente.
Segundo uma pesquisa da plataforma Resume Now, 92% dos trabalhadores entrevistados admitem procurar novas oportunidades profissionais enquanto ainda estão em seus cargos atuais.
Essa prática, conhecida como “ghostworking”, está se tornando comum, e pode mudar radicalmente a forma como entendemos engajamento no ambiente de trabalho.
A face oculta da produtividade
Relatórios como o da Asana mostram que muitos funcionários passaram a investir mais energia em parecer produtivos do que em realmente entregar resultados significativos. Andar com um caderno pela empresa, marcar reuniões falsas e manter planilhas abertas apenas para dar a impressão de ocupação são apenas alguns exemplos de um comportamento que virou norma.
O chamado “teatro da produtividade” vem acompanhado de um alto preço: burnout, perda de sentido no trabalho e desengajamento progressivo. Em vez de transparência e conexão, cresce a cultura da aparência, e com ela, a busca silenciosa por outras oportunidades.
Ghostworking
O ghostworking não é o problema em si, mas um sinal de alerta para empresas que ignoram o desengajamento interno. A prática revela uma série de fatores estruturais:
- Desalinhamento entre trabalho e propósito: Funcionários que não entendem o impacto de suas tarefas se sentem irrelevantes, e, portanto, desmotivados.
- Clima de insegurança: Em tempos de cortes, demissões em massa e instabilidade econômica, os profissionais preferem prevenir do que remediar.
- Desvalorização emocional e financeira: Baixos salários, ausência de reconhecimento e falta de perspectivas de crescimento alimentam a frustração.
- Ambientes de controle excessivo: Quanto maior a vigilância, mais os funcionários se tornam criativos para escapar dela.
Como os profissionais praticam ghostworking
A pesquisa da Resume Now mostra como o ghostworking já se estruturou como um comportamento estratégico:
- Edição de currículos e envio de candidaturas feitos diretamente do computador corporativo.
- Ligações com recrutadores atendidas dentro do próprio escritório.
- Saídas discretas para entrevistas, muitas vezes com o uso de atestados.
- Simulações de trabalho intenso, como digitação aleatória, reuniões falsas e uso de planilhas abertas enquanto navegam em conteúdos não relacionados ao trabalho.
Essas estratégias revelam não apenas criatividade, mas também um sentimento crescente de distanciamento entre o colaborador e a empresa.
O preço para as empresas
Embora muitas organizações tentem ignorar ou minimizar a prática, o ghostworking impõe custos reais e crescentes:
- Investimento desperdiçado: Recursos destinados a salários, treinamentos e capacitação estão, muitas vezes, sendo usados para que o funcionário prepare sua saída.
- Relações corroídas: A quebra da confiança entre liderança e equipe compromete o trabalho colaborativo e causa qualquer cultura saudável.
- Formação para a concorrência: Empresas acabam, sem querer, financiando o aprimoramento de profissionais que se tornarão ativos de seus concorrentes.
Onde estão as falhas?
Em vez de tratar o ghostworking como um inimigo a ser combatido com mais vigilância, empresas visionárias podem usá-lo como instrumento de diagnóstico. A presença do fenômeno revela, geralmente, um ou mais desses elementos:
- Falta de objetivos claros e inspiradores;
- Carência de planos de carreira transparentes;
- Práticas de liderança baseadas no controle, não na confiança;
- Esquemas de remuneração que não refletem o valor entregue;
- Falta de liberdade, reconhecimento e propósito real.
O que as empresas podem (e devem) fazer
A solução para o ghostworking não está no aumento da vigilância, mas sim na reinvenção do vínculo entre empresa e colaborador. Algumas estratégias fundamentais incluem:
- Gestão por resultado: Menos foco no tempo de tela e mais ênfase nas entregas reais.
- Programas de desenvolvimento de carreira: Mostrar ao funcionário que há um futuro dentro da organização reduz o desejo de buscar saídas.
- Política salarial justa e transparente: Remuneração adequada e reconhecimento frequente são antídotos poderosos contra a evasão.
- Ambientes flexíveis com propósito: Quando o profissional entende seu impacto na empresa, ele tende a permanecer e se engajar de forma autêntica.
Por que o ghostworking só tende a crescer
Não se trata de uma moda passageira. O ghostworking está crescendo, e deve se intensificar. Vários fatores alimentam esse cenário:
- Trabalho remoto e híbrido: A falta de supervisão direta facilita o multitasking e a busca paralela por novas vagas.
- Instabilidade crônica no mercado: Profissionais vivem em constante alerta, o que reduz sua disposição para compromissos de longo prazo.
- Nova mentalidade de carreira: A lógica da “empresa para a vida toda” deu lugar à busca contínua por realização pessoal e novos aprendizados.
- Ferramentas digitais avançadas: Com currículos automatizados, entrevistas virtuais e recrutamento por IA, mudar de emprego nunca foi tão fácil, nem tão discreto.
Uma nova era no mundo do trabalho
O ghostworking é um reflexo da transição que estamos vivendo. O modelo antigo de trabalho, baseado em hierarquias rígidas, vigilância e lealdade incondicional, está sendo substituído por uma nova lógica baseada em propósito, resultado e liberdade.
Nesse novo cenário, os profissionais não esperam mais permissão para buscar alternativas. Eles agem, e as empresas que não acompanharem essa mudança ficarão para trás. Adaptar-se a essa realidade não é uma escolha: é uma questão de sobrevivência.





