Tudo começou com o relançamento do mangá “O Futuro que Eu Vi”, da artista japonesa Ryo Tatsuki.
Conhecida por relatar sonhos premonitórios em sua obra, Tatsuki afirmou que no dia 5 de julho de 2025 ocorreria um grande terremoto seguido por um tsunami devastador, afetando regiões entre o Japão e as Filipinas.
Essa afirmação, embora nunca tenha sido validada cientificamente, provocou uma reação intensa nas redes sociais, especialmente em países do Leste Asiático.
Uma “profecia” que revive traumas reais
A inquietação não surgiu do nada. A artista ganhou notoriedade após ter “previsto”, anos antes, o terremoto de Tohoku, em março de 2011, desastre que matou mais de 15 mil pessoas e causou o acidente nuclear de Fukushima.
A suposta coincidência alimentou uma aura mística em torno de Tatsuki, amplificada por outras previsões atribuídas a ela, como a morte da princesa Diana, a de Freddie Mercury e até a pandemia de Covid-19.
Cancelamentos em massa no turismo
Apesar de autoridades científicas desmentirem qualquer possibilidade de previsão de terremotos com precisão, o medo se espalhou rapidamente. Agências de turismo como a WWPKG, em Hong Kong, registraram uma queda de até 50% nas reservas para o Japão, especialmente durante o feriado da Páscoa.
Os principais cancelamentos vieram da China continental, de Hong Kong, da Tailândia e do Vietnã, mas o nervosismo também foi percebido em outras regiões. Muitos turistas simplesmente decidiram adiar ou cancelar suas viagens, mesmo que já estivessem planejadas há meses.
O alcance da “previsão” foi intensificado por vídeos virais, blogs sensacionalistas e influencers que discutiram abertamente a obra e seus supostos acertos. Para agravar ainda mais o cenário, um vidente anônimo viralizou após “confirmar” a previsão da mangaká e recomendar evitar o Japão neste período.
Essa combinação de elementos, superstição, trauma coletivo e desinformação, criou o ambiente perfeito para uma onda de pânico digital, difícil de ser controlada.
Comunicação mal interpretada do governo
A confusão ganhou novo fôlego quando internautas passaram a compartilhar um relatório do governo japonês que indica 80% de chance de um grande terremoto na região da Fossa de Nankai nos próximos 30 anos.
Embora o documento seja real e trate de previsões estatísticas de longo prazo, ele foi interpretado erroneamente como um alerta de curto prazo, o que apenas alimentou a paranoia coletiva.
Entre a cultura do medo e o preparo consciente
O Japão, um dos países mais propensos a terremotos do mundo, mantém sistemas avançados de monitoramento sísmico e uma cultura consolidada de prevenção de desastres.
A presença de sirenes, treinamentos regulares e planos de evacuação mostra que a sociedade japonesa leva a sério o risco sísmico, mas com base em dados, não em previsões místicas.
O episódio mostra como, mesmo em sociedades tecnológicas, o imaginário coletivo ainda é profundamente influenciado por elementos culturais e narrativas simbólicas.
A arte pode alertar, provocar e inspirar, mas a responsabilidade de agir com prudência e lógica continua sendo coletiva. E, sobretudo, científica.






