A popularização dos montinhos de pedras em trilhas, praias, serras e mirantes transformou-se em um símbolo moderno do turismo de natureza, mas isso é um crime. Impulsionado pelas redes sociais, esse hábito estético se espalhou pelo mundo, ganhando força também no Brasil.
O que muitos não imaginam é que essa prática altera profundamente o ambiente natural, prejudica espécies vulneráveis e, no contexto brasileiro, configura crime ambiental.
A ilusão do “inofensivo”
Empilhar pedras parece uma brincadeira simples, uma forma de marcar presença ou de produzir fotos atraentes. Porém, cada pedra retirada do lugar cumpre uma função ecológica essencial.
Rochas não são apenas objetos inertes; elas mantêm um microclima que sustenta plantas e animais. Sob uma única pedra, podem existir condições específicas de umidade, temperatura e abrigo, fundamentais para espécies que dependem desse microhabitat.
A ciência explica por que mover pedras destrói ecossistemas
Pesquisadores que estudam a prática em regiões sensíveis do mundo alertam que deslocar rochas rompe o equilíbrio ecológico. Em áreas áridas e costeiras, o impacto é ainda mais severo.
Animais como lagartixas, insetos, moluscos e aracnídeos utilizam as pedras como refúgio contra predadores, além de proteção térmica e hídrica. Quando esses blocos são removidos para formar pilhas artificiais, espécies endêmicas, algumas já ameaçadas de extinção, ficam expostas, desorientadas ou sem abrigo.
Locais como a Ponta de São Lourenço, na Ilha da Madeira, enfrentam erosão acelerada, perda de vegetação e risco crescente para organismos que só existem ali. O deslocamento constante de pedras também ameaça briófitas raríssimas e moluscos restritos a pequenas áreas litorâneas.
Mesmo no Brasil, fenômenos semelhantes ocorrem em praias, costões e trilhas onde a paisagem natural depende da estabilidade dessas rochas.
Quando a prática se torna crime ambiental
Poucos brasileiros sabem que empilhar pedras em áreas naturais protegidas é ilegal. A Lei de Crimes Ambientais (9.605/1998) considera crime qualquer intervenção que degrade a paisagem, prejudique a fauna, danifique vegetação nativa ou altere estruturas naturais em unidades de conservação.
Movimentar rochas, mesmo sem intenção destrutiva, pode ser enquadrado como dano ambiental e resultar em multas ou penalidades mais severas, conforme o impacto causado.
Mesmo quando a prática ocorre em espaços urbanos, como praças e calçadões, especialistas alertam para um perigo indireto: a naturalização dessas esculturas improvisadas. Ao se tornar comum na cidade, a prática migra para ambientes naturais, onde o dano é real e imediato.
A banalização visual das pilhas incentiva visitantes menos informados a replicarem o comportamento em áreas frágeis e ecologicamente valiosas.
O que visitantes devem fazer para proteger a natureza
Para preservar ecossistemas vulneráveis, a recomendação dos especialistas é clara: não mover, empilhar ou reorganizar pedras durante trilhas ou passeios.
Seguir apenas os caminhos oficiais, reduzir o impacto sobre o solo e respeitar as formações naturais são atitudes simples que evitam grandes prejuízos ambientais. Além disso, relatar práticas irregulares e conscientizar outros visitantes ajuda a frear o avanço dessa moda prejudicial.
Em um país tão rico em biodiversidade como o Brasil, preservar cada elemento natural, inclusive uma única pedra, pode significar a diferença entre a continuidade e a extinção de espécies inteiras.
A proteção da natureza começa em pequenos gestos, e o primeiro deles é deixar cada rocha exatamente onde a natureza a colocou.





