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Polilaminina: Entenda a nova pesquisa brasileira e o que falta para chegar aos pacientes

Por Leticia Florenço
10/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Tatiana Sampaio - Reprodução

Tatiana Sampaio - Reprodução

A busca por tratamentos capazes de restaurar movimentos após lesões na medula espinhal sempre foi um dos maiores desafios da ciência moderna.

Nesse cenário, uma pesquisa brasileira voltou a chamar a atenção da comunidade científica e do público: o estudo sobre a polilaminina, uma substância investigada há décadas por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a farmacêutica Cristália.

Embora os resultados iniciais tenham despertado entusiasmo, especialistas ressaltam que ainda há um longo percurso até que o tratamento possa ser considerado seguro e eficaz para uso amplo em pacientes.

A jornada científica envolve diversas etapas rigorosas, fundamentais para garantir que qualquer nova terapia realmente funcione e não cause riscos à saúde.

A descoberta inesperada que deu origem à polilaminina

A história da polilaminina começou de forma inesperada. A bióloga Tatiana Sampaio Coelho, pesquisadora da UFRJ, estudava a laminina, uma proteína presente em diferentes tecidos do corpo humano.

Durante um experimento em laboratório, ela tentou separar as partes que compõem essa proteína. No entanto, ao utilizar um solvente específico, ocorreu exatamente o contrário do esperado: em vez de se separarem, as moléculas passaram a se agrupar, formando uma estrutura em rede.

Essa nova formação recebeu o nome de polilaminina. Essa rede molecular chamou a atenção dos pesquisadores porque algo semelhante ocorre naturalmente no organismo, mas nunca havia sido reproduzido artificialmente em laboratório.

A descoberta abriu caminho para novas investigações sobre possíveis aplicações médicas.

O papel das lamininas no sistema nervoso

Para compreender a importância da polilaminina, é necessário entender como funciona o sistema nervoso.

No cérebro e na medula espinhal, os neurônios possuem estruturas chamadas axônios, responsáveis por transmitir sinais elétricos e químicos entre as células nervosas. Esses sinais são essenciais para que o cérebro controle movimentos, sensações e diversas funções do corpo.

As lamininas funcionam como uma espécie de estrutura de suporte para esses axônios, ajudando a orientar o crescimento e a conexão entre os neurônios.

Quando ocorre uma lesão na medula espinhal, causada por acidentes, quedas ou ferimentos, muitos axônios são rompidos. Esse rompimento interrompe a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo, provocando paralisia parcial ou total.

O grande problema é que o sistema nervoso central possui capacidade extremamente limitada de regeneração. É justamente nesse ponto que a polilaminina pode fazer diferença.

A hipótese científica

A proposta dos pesquisadores é que a polilaminina funcione como uma espécie de “andaime biológico” dentro do sistema nervoso.

Em teoria, a rede formada por essa substância poderia servir como uma base para que os axônios lesionados voltem a crescer e se reconectar, restabelecendo a comunicação entre o cérebro e as regiões do corpo afetadas pela lesão.

Caso essa hipótese seja comprovada, o tratamento poderia representar um avanço significativo no campo da medicina regenerativa, área que busca restaurar tecidos e funções do organismo.

Décadas de pesquisa antes de chegar aos humanos

Apesar de a descoberta ter ocorrido há mais de 25 anos, grande parte desse tempo foi dedicada à chamada fase pré-clínica, etapa em que os cientistas realizam testes em laboratório.

Nessa fase, os pesquisadores precisam responder perguntas fundamentais:

  • A substância produz algum efeito biológico?
  • Ela é segura para as células?
  • Pode causar toxicidade?
  • Apresenta resultados em animais?

Somente depois de comprovar esses pontos em culturas celulares e em modelos animais, como ratos, é que os estudos podem avançar para testes em seres humanos.

O estudo-piloto com pacientes

Entre 2016 e 2021, a equipe realizou um estudo-piloto envolvendo oito pessoas com lesões graves na medula espinhal.

Esses pacientes haviam sofrido acidentes variados, como quedas, colisões de carro ou ferimentos por arma de fogo. A maioria passou por uma cirurgia chamada descompressão da coluna, procedimento comum para reduzir a pressão sobre a medula.

Após a cirurgia, alguns receberam também a aplicação da polilaminina. Os resultados chamaram atenção:

  • Cinco pacientes apresentaram algum nível de recuperação motora.
  • Quatro evoluíram do grau AIS A para AIS C, indicando recuperação parcial de movimentos e sensibilidade.
  • Um paciente alcançou o nível AIS D, com funções motoras quase normais.

A escala AIS é um sistema internacional utilizado para classificar a gravidade das lesões medulares, variando de A (paralisia completa) até E (funcionamento normal).

Por que esses resultados ainda não são suficientes?

Apesar das histórias promissoras, os cientistas ressaltam que o estudo-piloto não prova, sozinho, que a polilaminina é eficaz. Isso ocorre por diversos motivos:

  • O número de pacientes foi muito pequeno.
  • Algumas pessoas com lesão medular podem apresentar recuperação espontânea.
  • Diagnósticos iniciais podem ser influenciados por inflamações e inchaços após o trauma.

Por essas razões, são necessários ensaios clínicos maiores e controlados, seguindo protocolos científicos rigorosos.

As três fases obrigatórias dos testes clínicos

Para que um medicamento ou terapia seja aprovado, ele precisa passar por três etapas principais:

Fase 1 — segurança

  • Pequeno número de voluntários
  • Avaliação de possíveis efeitos colaterais
  • Estudo de como a substância se comporta no organismo

Fase 2 — eficácia inicial

  • Mais pacientes participam
  • Testes com diferentes doses
  • Primeiras evidências claras de eficácia

Fase 3 — comprovação científica

  • Grande número de participantes
  • Comparação com tratamentos existentes
  • Estudos realizados em vários centros médicos

Somente após concluir essas fases é que um tratamento pode ser analisado para aprovação.

Desafios científicos e éticos

Ensaios clínicos envolvendo lesões medulares apresentam dificuldades específicas. Um dos desafios é a necessidade de iniciar o tratamento poucas horas após o acidente, o que limita o número de pacientes elegíveis para participar dos estudos.

Outro ponto importante envolve o chamado grupo controle, utilizado para comparar os resultados entre quem recebe o tratamento e quem segue apenas com terapias convencionais.

Essa etapa é essencial para garantir que eventuais melhorias não sejam resultado de fatores externos ou recuperação natural.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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