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PF identifica desvio de R$ 640 milhões no INSS; veja como eram feitos os descontos

Por Leticia Florenço
09/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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INSS

Previdência Social - Reprodução

Uma investigação conduzida pela Polícia Federal revelou um amplo esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões pagas pelo Instituto Nacional do Seguro Social.

O caso tem como principal alvo a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer), suspeita de participar de um mecanismo que teria desviado cerca de R$ 640 milhões entre os anos de 2022 e 2025.

Segundo os investigadores, a entidade utilizava um sistema de cobranças associativas aplicadas diretamente nos benefícios previdenciários. Muitos aposentados e pensionistas, no entanto, afirmam que nunca autorizaram qualquer vínculo ou contribuição à associação, o que levanta suspeitas de fraude em larga escala.

Como funcionavam os descontos nas aposentadorias

De acordo com a investigação, o esquema operava por meio da inclusão de descontos mensais automáticos nos extratos dos beneficiários do INSS. Esses valores apareciam como contribuições associativas destinadas à entidade investigada.

Embora individualmente os valores fossem relativamente pequenos, a prática era aplicada a um grande número de aposentados e pensionistas em todo o país. Ao longo de anos, os descontos teriam acumulado cifras milionárias.

As autoridades afirmam que muitos beneficiários sequer tinham conhecimento de que estavam associados à entidade, o que reforça a hipótese de que os dados tenham sido inseridos irregularmente no sistema.

Transferências para empresas suspeitas

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi o destino do dinheiro arrecadado com os descontos. Segundo a Polícia Federal, quase 90% do valor total arrecadado foi transferido para empresas consideradas de fachada.

Essas companhias teriam sido utilizadas para movimentar os recursos e dificultar o rastreamento da origem e do destino final do dinheiro. A prática é frequentemente associada a operações de lavagem de dinheiro, já que cria camadas intermediárias de transações financeiras.

Dívidas da entidade com o governo

Apesar de movimentar valores elevados, o principal CNPJ da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares possui pendências financeiras registradas junto ao governo federal.

Registros oficiais apontam 21 inscrições em dívida ativa, somando cerca de R$ 560 mil. Desse total, aproximadamente R$ 440 mil correspondem a débitos tributários e previdenciários, enquanto cerca de R$ 105 mil são dívidas trabalhistas.

Há ainda quase R$ 17 mil relacionados a pendências administrativas no Distrito Federal.

Núcleo político no centro das investigações

As apurações identificaram a existência de diferentes grupos de atuação dentro do esquema. Um deles, classificado como núcleo político e de apoio, teria atuado para garantir influência e facilitar o acesso ao sistema do INSS.

Nesse contexto, o deputado Euclydes Pettersen aparece nas investigações como um dos principais beneficiários financeiros ligados à estrutura investigada. Segundo a polícia, ele teria recebido pelo menos R$ 14,7 milhões provenientes de empresas relacionadas ao esquema.

Os pagamentos teriam sido feitos por meio de uma lotérica e de uma construtora localizadas no interior de Minas Gerais.

Pedido de monitoramento negado pelo STF

Durante o avanço da investigação, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal autorização para monitorar o parlamentar por meio de tornozeleira eletrônica.

O pedido foi analisado pelo ministro André Mendonça, que decidiu negar a solicitação, mantendo o deputado sem medidas cautelares desse tipo.

Operação nacional e prisões

Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou uma etapa da Operação Sem Desconto, realizada em conjunto com a Controladoria-Geral da União.

A operação resultou no cumprimento de 10 mandados de prisão preventiva e 63 mandados de busca e apreensão, executados em 17 estados e no Distrito Federal. Entre os alvos estavam ex-gestores do INSS e dirigentes de entidades associativas que teriam se beneficiado do sistema fraudulento.

Depoimento e prisão por falso testemunho

Durante as investigações parlamentares conduzidas pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS, o presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, teve a prisão em flagrante decretada por falso testemunho durante um depoimento.

Ele foi o segundo depoente a ter a prisão determinada pela comissão. Apesar disso, acabou sendo liberado poucas horas depois.

Crimes investigados e impacto do caso

As autoridades investigam uma série de crimes ligados ao esquema, incluindo inserção de dados falsos em sistemas públicos, organização criminosa, estelionato previdenciário, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

O caso reacendeu o debate sobre a segurança dos sistemas que permitem descontos associativos nos benefícios previdenciários. Especialistas defendem maior controle e transparência para evitar que aposentados e pensionistas sejam vítimas de cobranças indevidas.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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