Pela primeira vez, um levantamento nacional decide investigar de forma profunda os hábitos de consumo, preferências e estilos de vida de pessoas que atuam diretamente na cadeia do tráfico de drogas no Brasil.
O Data Favela apresentou o Raio X da Vida Real, estudo que entrevistou 3.954 moradores de favelas em 23 estados, todos exercendo algum tipo de função recorrente dentro da estrutura do crime organizado.
O peso da informalidade nas decisões financeiras
O estudo mostra que a instabilidade e ilegalidade da atividade exercida transformam profundamente a relação dessas pessoas com o sistema financeiro. Uma parte evita bancos, seja por receio de rastreamento, seja por falta de acesso a serviços formais.
Assim, 28% preferem guardar dinheiro em casa, 10% recorrem a parentes ou amigos, e 2% mantêm valores em cofres. Apenas 16% têm dinheiro em banco.
Mesmo assim, entre os que utilizam serviços bancários, o Bradesco aparece como a instituição mais citada (21%), seguido por Itaú (16%), Caixa (14%), Nubank (13%), Banco do Brasil (11%) e Santander (9%).
Há ainda aqueles que investem de maneira alternativa, 7% aplicam recursos em imóveis ou carros, 5% fazem investimentos financeiros e 4% optam por ouro ou joias.
A força das marcas e o consumo como símbolo de status
O Data Favela dedicou uma parte do estudo a identificar quais marcas são mais admiradas ou usadas por esse público. Os resultados revelam que, apesar das dificuldades impostas pelo contexto, o consumo aspiracional é forte.
No setor de eletrônicos, Apple e Samsung dividem a liderança, cada uma com 31% das preferências, seguidas por Xiaomi, Motorola e LG. Nas operadoras de celular, Claro (35%), TIM (30%) e Vivo (20%) concentram a maior parte dos usuários.
O comércio digital como porta de acesso
O uso de marketplaces digitais é expressivo. A Shopee aparece como a plataforma preferida, com 29% das citações, seguida por Mercado Livre (21%) e Amazon (12%).
A presença de Shein, Temu, AliExpress e varejistas tradicionais como Americanas e Magazine Luiza reforça que esse grupo está totalmente integrado ao consumo online, movido por preços baixos e grande variedade.
Preferências cotidianas que refletem o consumo nacional
Em categorias básicas, os resultados se aproximam do perfil do consumidor médio brasileiro. Entre os cafés, Pilão lidera com 21%. Na cerveja, Heineken aparece em primeiro com 19%, seguida por Brahma e Skol.
No vestuário, Nike domina com 23%, à frente de Lacoste, Adidas e outras marcas associadas a moda esportiva e streetwear. Em itens de higiene e limpeza, Omo, Colgate, Dove e Lux ocupam as primeiras posições, mostrando força das marcas tradicionais.
Mobilidade, status e funcionalidade nas escolhas de motos e carros
O transporte tem papel estratégico na vida desse grupo, especialmente pela necessidade de mobilidade rápida e constante. Entre motos, a Honda lidera com folga (32%), acompanhada por BMW e Yamaha.
Já nos carros, BMW, Toyota e Volkswagen dividem o topo, cada uma com 11%, seguidas por Fiat, Chevrolet e Jeep. As escolhas revelam um equilíbrio entre status e eficiência prática no cotidiano.
Hábitos de fumo e a presença de marcas populares
Embora o imaginário popular associe o ambiente do tráfico ao cigarro, 26% dos entrevistados declararam não fumar. Entre os fumantes, Hollywood (12%) e Derby (8%) são os mais consumidos, acompanhados por marcas como Free, Marlboro, Dunhill e Lucky Strike, todas com presença significativa nas comunidades.
O Raio X da Vida Real mostra que, mesmo dentro de um contexto de ilegalidade, essas pessoas seguem padrões de consumo semelhantes a grande parte da população brasileira.
Suas escolhas traduzem busca por pertencimento, necessidade de praticidade, desejo por status e, sobretudo, a tentativa de compensar a instabilidade de uma rotina marcada pela violência e pela falta de oportunidades.






