O Partido Liberal (PL) afirmou ontem, dia 24, que a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, realizada no último sábado, teria sido motivada por intolerância religiosa.
A sigla decidiu adotar esse argumento como peça central de sua atuação política nesta semana, quando tenta avançar no Congresso Nacional com a proposta de anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A aprovação da medida, defendida abertamente por lideranças da legenda, é vista como a única saída para retirar Bolsonaro da condição de preso preventivo.
Apesar da narrativa construída pelo PL, a decisão que transformou a prisão domiciliar do ex-presidente em detenção na sede da Polícia Federal se apoiou em fundamentos apresentados pela própria PF, que apontaram risco concreto de fuga.
O ministro Alexandre de Moraes acolheu esses elementos, e sua decisão foi confirmada pelos demais ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal na manhã de ontem.
Partido de Bolsonaro diz que prisão foi causada por “intolerância religiosa”
A reunião que selou a estratégia ocorreu na segunda feira e contou com a presença de cinquenta parlamentares do partido, entre deputados e senadores. O encontro teve um objetivo claro: alinhar o discurso público e pressionar a Câmara dos Deputados a votar a anistia ainda nesta semana.
Integrantes do PL afirmam que a narrativa de intolerância religiosa seria útil para mobilizar setores conservadores da sociedade e para reforçar a ideia de que Bolsonaro estaria sendo perseguido injustamente.
A sigla pretende levar o tema à reunião de líderes e busca convencer o presidente da Casa, Hugo Motta, a pautar o texto imediatamente.
O filho mais velho de Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, assumiu a linha de frente, repetindo que seu pai teria sido alvo de preconceito e insistindo que a aprovação da anistia é agora a prioridade absoluta.
Bolsonaro foi preso no sábado após violar tornozeleira; PF viu risco de fuga
Enquanto o partido estruturava seu discurso, os detalhes da prisão do ex-presidente confirmavam outro cenário.
Bolsonaro foi detido no início da manhã de sábado (22) em sua casa, em Brasília. A ação ocorreu de forma rápida e sem resistência, e ele foi levado para a sede da PF, onde passou pelos procedimentos de praxe antes de ser encaminhado para a sala reservada a autoridades.
O fator decisivo para a mudança da prisão domiciliar para o regime preventivo não esteve ligado a qualquer episódio de natureza religiosa, mas sim a um conjunto de fatos que, para a PF e para Moraes, indicavam risco de evasão.
Entre esses elementos, a PF registrou a violação da tornozeleira eletrônica durante a madrugada. Bolsonaro usou um aparelho de solda para tentar abrir o objeto. O episódio levantou suspeitas imediatas de que o ex-presidente poderia estar se preparando para escapar.
Além disso, a convocação de apoiadores para uma vigília em frente à residência de Bolsonaro, feita por Flávio, que poderia causar tumulto no local da prisão domiciliar e atrapalhar a atuação dos agentes da PF, foi apontada como possível interferência na execução das medidas judiciais.
O ministro também observou que aliados próximos do ex-presidente haviam deixado o país nos últimos dias, o que reforçava o alerta.
Havia ainda o histórico de um plano para buscar asilo na embaixada da Argentina, identificado durante as investigações, e o fato de que a casa de Bolsonaro fica a curta distância do setor de embaixadas.
Mesmo com a insistência do PL em atribuir a prisão a intolerância religiosa, os autos revelam que a decisão judicial se sustentou em fatores concretos de segurança. A disputa agora se desloca para o Congresso, onde o partido tenta transformar sua narrativa em força política suficiente para aprovar a anistia.






