Entre 2024 e o início de 2025, o dólar americano apresentou seu pior desempenho cambial em mais de cinco décadas, registrando perdas frente a várias moedas globais.
Este fenômeno ocorre mesmo diante de um cenário global que, historicamente, favoreceriam a valorização da moeda norte-americana, como a guerra no Oriente Médio, tensões comerciais com a China, incertezas políticas internas nos Estados Unidos e volatilidade nos mercados financeiros.
A exceção histórica no comportamento do dólar
Normalmente, em períodos de crise e incertezas globais, o dólar é a moeda escolhida como porto seguro pelos investidores. Isso acontece porque o dólar é considerado um ativo altamente líquido e confiável, usado amplamente nas reservas internacionais e nas transações comerciais globais.
Segundo o economista Bruno Corano, da Corano Capital, desta vez não houve uma crise global de fato. Os conflitos e tensões existentes não impactaram profundamente as cadeias produtivas nem o abastecimento de commodities essenciais como o petróleo, diminuindo o efeito “refúgio” tradicional do dólar.
Redução da hegemonia do dólar
Apesar da fragilidade recente, o dólar ainda é a moeda predominante no comércio mundial, reservas cambiais e emissão de dívidas soberanas. No entanto, sua hegemonia está enfraquecendo:
- Em 2001, cerca de 73% das reservas internacionais estavam denominadas em dólar.
- Atualmente, esse percentual caiu para menos de 58% e segue em declínio.
Esse movimento indica que outras moedas e blocos econômicos têm buscado alternativas para diversificar suas reservas e reduzir a dependência do dólar.
Principais fatores que influenciaram a perda de força do dólar
Após dois anos de elevações agressivas na taxa de juros, o Federal Reserve sinalizou o fim desse ciclo e iniciou cortes nas taxas. Com a redução dos juros americanos, o atrativo de investir em dólares diminui, pois investidores buscam moedas que ainda ofereçam rendimentos mais elevados.
Desaceleração da economia dos EUA: Indicadores importantes mostraram um enfraquecimento da economia americana, como:
- Setor imobiliário mais fraco.
- Consumo doméstico perdendo força.
- Dados mistos no mercado de trabalho.
Essa desaceleração impacta a percepção de solidez econômica dos EUA, tornando o dólar menos atrativo.
Enquanto a inflação nos EUA está sob controle, países como Canadá, Austrália, alguns membros da Zona do Euro e até economias emergentes mantêm suas taxas de juros elevadas. Isso neutraliza ou até inverte o diferencial de juros que antes favorecia o dólar.
Instabilidade política interna nos Estados Unidos
O cenário político nos EUA está marcado por:
- Possível retorno de Donald Trump à presidência.
- Disputas sobre o teto da dívida pública.
- Polarização institucional intensa.
Essa instabilidade afeta a percepção global sobre a estabilidade política e econômica do país, prejudicando o dólar como ativo de refúgio.
Consequências e movimentos globais contra a hegemonia do dólar
Mesmo com sua fraqueza atual, o dólar ainda domina mais de 80% das transações cambiais globais, mas isso vem mudando:
- Blocos regionais e acordos bilaterais têm fortalecido o uso de outras moedas no comércio internacional.
- O avanço econômico e diplomático da China, especialmente com o aumento do uso do yuan, pressiona a supremacia do dólar.
A realocação de portfólios de investidores em direção a moedas que oferecem maior rendimento e estabilidade, como o euro, o dólar canadense e o dólar australiano, é uma resposta direta a esses fatores.
O dólar não perdeu sua importância da noite para o dia, mas seu domínio absoluto está sendo contestado por uma combinação de fatores econômicos, políticos e estratégicos.
A expectativa de cortes de juros nos EUA, a desaceleração econômica americana, os juros mais altos em outras regiões e a crise de credibilidade política nos Estados Unidos são ingredientes que levam a uma menor demanda pela moeda americana.




