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Nem todo mundo tem mecanismo de superação para os lutos

Por Leticia Florenço
21/02/2026
Em Mais Tendências, Colunas
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Cemitério - Reprodução/iStock

Cemitério - Reprodução/iStock

A morte de um ente querido costuma provocar uma das experiências emocionais mais devastadoras da vida humana. Na maioria das situações, embora a dor seja profunda e inicialmente avassaladora, as pessoas conseguem, com o tempo, retomar gradualmente a rotina e reconstruir sentidos para a própria existência.

Esse processo não significa esquecer quem partiu, mas sim adaptar-se à ausência. O problema é que esse mecanismo natural de reorganização emocional não funciona para todos.

Para algumas pessoas, o sofrimento permanece intenso e praticamente inalterado por meses ou até anos, caracterizando o chamado transtorno do luto prolongado (TLP).

Quando o luto deixa de seguir o curso esperado

O luto típico envolve saudade profunda, tristeza e um período de desorganização emocional. Com o passar do tempo, porém, o cérebro tende a integrar a perda à realidade, permitindo que a pessoa volte a investir energia na vida cotidiana. No transtorno do luto prolongado, esse processo parece ficar interrompido.

Estudos indicam que cerca de um em cada vinte enlutados desenvolve o quadro. Nesses casos, mesmo após seis meses da perda, persistem sentimentos intensos de vazio, dificuldade de aceitar a morte e a sensação de que a própria identidade ficou comprometida.

A vida passa a ser percebida como sem propósito, e atividades antes significativas perdem o valor emocional.

Um diagnóstico relativamente recente na psiquiatria

O transtorno do luto prolongado ainda é considerado relativamente novo no campo dos diagnósticos psiquiátricos. O pesquisador Richard Bryant, da University of New South Wales, tem destacado que o entendimento científico sobre a condição está em rápida evolução.

Uma revisão publicada na revista Trends in Neurosciences reuniu evidências recentes sobre a neurobiologia do transtorno. O objetivo foi investigar por que, em alguns indivíduos, o cérebro continua reagindo à perda como se ela fosse recente, mesmo após longo período.

O cérebro em estado de busca pela pessoa perdida

Um dos achados mais relevantes aponta para alterações nas chamadas redes de recompensa do cérebro. Esses circuitos normalmente estão associados à motivação, ao prazer e aos vínculos sociais.

Em estudos de neuroimagem, participantes enlutados foram convidados a recordar memórias do falecido, observar fotografias ou manipular objetos ligados à pessoa perdida.

Nos indivíduos com transtorno do luto prolongado, certas áreas cerebrais permaneceram altamente ativadas, como se o cérebro ainda estivesse esperando uma recompensa, no caso, o reencontro com quem morreu.

Esse padrão ajuda a explicar por que o sofrimento pode se manter tão persistente: biologicamente, o sistema de vínculo continua “procurando” alguém que não pode mais voltar.

Núcleo accumbens e córtex orbitofrontal em descompasso

Entre as regiões mais implicadas está o núcleo accumbens, estrutura responsável pela liberação de dopamina quando antecipamos recompensas. No luto prolongado, ele continua respondendo intensamente a estímulos relacionados ao falecido, mantendo um estado contínuo de anseio.

O córtex orbitofrontal, localizado na parte frontal inferior do cérebro, também desempenha papel crucial. Essa área ajuda a atualizar o valor das experiências e a ajustar o comportamento diante de mudanças na realidade.

Quando esse mecanismo falha, o cérebro pode ter dificuldade de registrar plenamente que a pessoa amada não está mais disponível, contribuindo para a sensação persistente de perda de sentido.

Quando a saudade ativa circuitos de ameaça e dor

Outras estruturas importantes envolvidas são a amígdala e a ínsula. A amígdala, conhecida por regular respostas de medo e alerta, tende a permanecer em estado de hipervigilância no transtorno do luto prolongado.

A perda do vínculo afetivo pode ser interpretada pelo cérebro como uma ameaça biológica relevante, o que ajuda a explicar níveis elevados de ansiedade e tensão.

Já a ínsula, responsável por monitorar os sinais internos do corpo, apresenta um fenômeno particularmente marcante. Estudos mostram que, ao ver imagens do ente querido, pessoas com luto prolongado podem apresentar padrões de ativação semelhantes aos observados em experiências de dor física real.

Isso sugere que, neurologicamente, a saudade pode ser literalmente sentida no corpo.

Sobreposição com depressão e estresse pós-traumático

Os pesquisadores observam que alguns padrões neurais do transtorno do luto prolongado também aparecem em condições como depressão e transtorno de estresse pós-traumático. Elementos como ruminação persistente, sofrimento emocional intenso e dificuldade de regulação afetiva são pontos de convergência.

Ainda assim, o TLP possui características próprias, especialmente o foco contínuo na pessoa falecida e a sensação duradoura de ruptura identitária. Reconhecer essas diferenças é fundamental para que o tratamento seja direcionado de forma adequada.

Há caminhos de tratamento e recuperação

Embora o transtorno do luto prolongado possa ser profundamente debilitante, especialistas enfatizam que existem intervenções eficazes. Terapias psicológicas focadas no processamento do luto, na reconstrução de significado e na reintegração gradual à vida cotidiana têm apresentado resultados promissores.

O reconhecimento clínico do transtorno é um passo importante para evitar que o sofrimento persistente seja interpretado apenas como “fraqueza” ou falta de resiliência.

Para algumas pessoas, o cérebro realmente precisa de apoio especializado para conseguir reorganizar a experiência da perda.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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