Ao amanhecer na Amazônia, a neblina que surge sobre as árvores não é apenas vapor d’água. Cientistas descobriram que essas gotículas carregam microrganismos vivos, como bactérias e fungos, capazes de sobreviver à viagem atmosférica e, possivelmente, influenciar a formação de nuvens e chuvas.
O achado, descrito na revista Communications Earth and Environment, revela um componente invisível, porém ativo, do complexo ciclo climático amazônico.
A pesquisa foi realizada na Reserva do Uatumã, a cerca de 156 quilômetros de Manaus, e representa o primeiro registro de microrganismos vivos em gotículas de neblina na Amazônia.
Madrugadas suspensas a 42 metros do chão
O estudo nasceu da dissertação de mestrado da pesquisadora Bruna Grasielli Sebben, atualmente doutoranda no Instituto Max Planck. Para coletar as amostras, ela passou inúmeras madrugadas no alto de uma torre do Observatório de Torres Altas da Amazônia (ATTO), posicionada a 42 metros acima do solo.
Entre 3h e 7h da manhã, imersa na névoa espessa, a pesquisadora operava um equipamento que aspirava o nevoeiro e condensava a água em pequenos frascos. Era preciso garantir que não chovesse, para não comprometer as amostras.
O material coletado seguiu para análise no Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.
Vida invisível nas gotículas
As análises revelaram a presença de oito espécies de bactérias e sete de fungos vivos. Entre eles estavam a bactéria Serratia marcescens e o fungo Aspergillus niger, conhecidos por sua ampla distribuição no solo e em matéria orgânica em decomposição.
A grande questão passou a ser: como esses organismos, tipicamente associados ao solo e às plantas, alcançaram as gotículas suspensas sobre a copa das árvores?
Uma das hipóteses aponta para correntes de ar ascendentes que transportam partículas microscópicas até as camadas superiores da floresta, onde a neblina se forma. Diferenças de carga elétrica entre partículas e gotículas podem favorecer a adesão dos microrganismos, que acabam incorporados ao nevoeiro.
Um “elevador” biológico para a atmosfera
Segundo o químico Ricardo Godoi, da Universidade Federal do Paraná, a neblina pode funcionar como um abrigo temporário. Dentro das gotículas, os micróbios ficam protegidos contra a radiação ultravioleta e o ressecamento, aumentando suas chances de sobrevivência.
Quando o sol nasce e a neblina se dissipa, parte desses microrganismos permanece suspensa no ar. Nesse estágio, eles podem atuar como núcleos de condensação, partículas que facilitam a formação de novas gotículas em altitudes maiores.
O físico Heitor Evangelista, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, afirma que o nevoeiro age como um verdadeiro “elevador” biológico. Ao transportar esses organismos para camadas superiores da atmosfera, contribui potencialmente para iniciar a formação de nuvens.
Em outras palavras, a floresta não apenas evapora água: ela participa ativamente da engenharia das próprias chuvas.
Ciclo da água
A Amazônia já é reconhecida por seu papel central na reciclagem de umidade. Estimativas indicam que cerca de metade da chuva que cai sobre o bioma é gerada por processos internos da própria floresta.
Parte desse vapor segue pelos chamados “rios voadores”, levando umidade para o centro-sul do Brasil e até a bacia do Prata.
A descoberta de um “ecossistema da neblina” adiciona uma nova peça a esse quebra-cabeça climático. Se microrganismos ajudam a iniciar a formação de nuvens, então a biodiversidade amazônica pode ter influência direta na regularidade das chuvas, inclusive em regiões agrícolas distantes.
Desmatamento
A substituição da floresta por pastagens ou lavouras pode alterar drasticamente esse delicado sistema. Estudos apontam que áreas desmatadas podem registrar aumento de até 3 °C na temperatura do solo e redução nas chuvas.
Além disso, a fumaça das queimadas modifica a composição da atmosfera. Diferentemente dos microrganismos transportados pela neblina, partículas de fuligem tendem a dificultar a formação de nuvens, atrasando ou reduzindo a precipitação.
O climatologista Carlos Nobre, da Universidade de São Paulo, alerta que a degradação da floresta pode comprometer não apenas o regime de chuvas amazônico, mas também o abastecimento hídrico e agrícola de outras regiões do país.
Entender e proteger esses mecanismos pode ser decisivo para o futuro das chuvas, da agricultura e do equilíbrio ambiental em grande parte da América do Sul.






