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MST terá curso exclusivo de medicina; entenda como funciona

Por Leticia Florenço
10/10/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Perícia Médica - Reprodução/Unsplash

Perícia Médica - Reprodução/Unsplash

A recente decisão do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5) autorizando a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Caruaru, a lançar um curso de medicina voltado exclusivamente para militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) gerou amplo debate nacional.

Com foco na inclusão de populações historicamente marginalizadas, a iniciativa levanta questões sobre acesso à educação, igualdade de oportunidades e a formação de profissionais de saúde no Brasil.

Contexto e autorização judicial

O desembargador Fernando Braga Damasceno concedeu liminar que permitiu à UFPE retomar o edital do curso de medicina após suspensão inicial. Serão oferecidas 80 vagas, sem a exigência do vestibular tradicional.

A medida é direcionada especificamente a beneficiários do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), abrangendo assentados da reforma agrária ligados ao MST, quilombolas e educadores do programa.

Segundo o magistrado, a iniciativa não prejudica as vagas tradicionais destinadas à ampla concorrência. No entanto, para participar, os candidatos devem comprovar vínculo com o MST ou com o Pronera.

Critérios de seleção diferenciados

O curso não adotará provas objetivas como forma de classificação. A seleção ocorrerá em duas etapas:

  1. Formulário online e envio de documentos: Primeira fase, encerrada em 20 de setembro, que permitiu apenas a inscrição e comprovação de vínculo com o público-alvo.
  2. Redação e análise de histórico escolar: Segunda etapa, cujo tema da redação será relacionado ao contexto do Pronera, seguida da avaliação do desempenho acadêmico no ensino médio.

Essa abordagem busca privilegiar candidatos com trajetória ligada à reforma agrária e à inclusão social, reconhecendo a necessidade de ampliar oportunidades para grupos historicamente excluídos do ensino superior.

Parceria institucional

O curso resulta de uma articulação entre diversas instituições e movimentos sociais:

  • Incra: Coordena o Pronera e promove políticas de educação no campo.
  • UFPE: Responsável pelo desenvolvimento acadêmico do curso.
  • Ministério da Saúde: Apoia a formação de médicos que atuem em áreas rurais e populações vulneráveis.
  • Movimentos sociais: MST e organizações populares colaboram na definição de critérios e acompanhamento do projeto.

Segundo Clarice dos Santos, coordenadora-geral de Educação, Arte e Cultura do Campo do Incra, a iniciativa reflete um esforço conjunto para inclusão educacional e fortalecimento do sistema de saúde nas áreas rurais.

Repercussão e críticas

O MST comemorou a medida como histórica, afirmando que o reconhecimento de beneficiários do Pronera valoriza populações marginalizadas. Por outro lado, entidades médicas manifestaram oposição:

  • Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (CRM-PE)
  • Sindicato dos Médicos
  • Associação Médica
  • Academia Pernambucana de Medicina

Segundo essas entidades, o curso afronta princípios de isonomia e pode comprometer a credibilidade acadêmica, pois ignora mecanismos tradicionais de seleção, como o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

As críticas se concentram na criação de um processo paralelo de acesso à formação médica.

Impactos

O projeto pode abrir caminhos para uma formação médica voltada para regiões rurais e populações vulneráveis, suprindo carências históricas do SUS em áreas remotas.

Por outro lado, gera debate sobre justiça e equidade no acesso a cursos de alta concorrência, como medicina. A discussão envolve não apenas critérios acadêmicos, mas também políticas públicas voltadas à inclusão social.

O curso do MST na UFPE surge, portanto, como um experimento educacional e social, um teste de como combinar mérito acadêmico com políticas de reparação histórica e inclusão de grupos tradicionalmente excluídos.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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