A aposentadoria, que deveria representar um período de maior tranquilidade financeira, tem sido marcada por desafios para milhões de brasileiros.
Dados recentes de uma pesquisa da Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box, revelam um cenário preocupante: metade dos aposentados precisa recorrer a empréstimos para pagar contas comuns do dia a dia, como alimentação, moradia e medicamentos.
O levantamento mostra que a estabilidade financeira ainda está distante da realidade de quem vive exclusivamente do benefício previdenciário, mesmo após os reajustes aplicados pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Empréstimos deixam de ser exceção e viram regra
Segundo a pesquisa, 50% dos aposentados já solicitaram empréstimos para arcar com despesas básicas, enquanto outros 35% afirmam ter recorrido ao crédito para cobrir gastos considerados essenciais.
Isso inclui contas de casa, supermercado, farmácia e despesas médicas, que costumam pesar mais no orçamento com o avanço da idade.
Esse dado evidencia uma mudança preocupante no papel do crédito: em vez de ser usado para emergências pontuais, ele passa a funcionar como complemento fixo de renda.
Risco de endividamento cresce após a aposentadoria
Entre os 952 entrevistados, 44% afirmaram que o risco de endividamento aumentou depois que passaram a receber o benefício do INSS. A percepção é reforçada pela dificuldade em equilibrar uma renda mais limitada com despesas que continuam elevadas e, em muitos casos, crescentes.
Mesmo com maior experiência de vida, muitos aposentados relatam insegurança financeira e receio de não conseguir manter autonomia no futuro.
Reajuste dos benefícios não acompanha todas as necessidades
Em janeiro de 2026, os benefícios do INSS passaram por reajuste, mas de forma desigual:
- Quem recebe o piso previdenciário passou a ganhar R$ 1.621, valor alinhado ao novo salário mínimo, com correção de 6,79% e ganho real acima da inflação
- Quem recebe acima do mínimo teve reajuste de 3,90%, baseado no INPC acumulado de 2025
Apesar do aumento, 46% dos aposentados afirmam que o valor recebido não é suficiente para manter o padrão de vida anterior, o que reforça a necessidade de crédito e outras fontes de renda.
Medo da dependência financeira preocupa aposentados
Outro dado relevante da pesquisa aponta que 44% dos entrevistados têm medo de precisar de ajuda financeira de familiares ou terceiros. O receio de perder a autonomia aparece como uma das principais angústias dessa fase da vida.
Esse sentimento está diretamente ligado à dificuldade de arcar com despesas essenciais apenas com o valor da aposentadoria.
Para onde vai o dinheiro do benefício
A pesquisa também detalha os principais destinos do dinheiro recebido mensalmente pelos aposentados:
- Alimentação e supermercado: 60%
- Saúde e medicamentos: 55%
- Impostos e taxas: 37%
- Contas de água, luz e gás: 32%
- Pagamento de dívidas: 29%
Os gastos com saúde ganham destaque e tendem a aumentar com o passar dos anos, pressionando ainda mais o orçamento.
Aposentados que continuam trabalhando viram maioria
Diante das dificuldades, 60% dos aposentados continuam exercendo alguma atividade profissional. A principal motivação, segundo 63% deles, é a necessidade de complementar a renda. Outros 57% dizem que o trabalho ajuda a manter uma rotina ativa e saudável.
As fontes de renda complementar incluem:
- Trabalho formal: 26%
- Atividades como freelancer ou autônomo: 18%
- Renda com imóveis, como aluguel: 17%
Planejamento financeiro ameniza impactos, mas não elimina desafios
Apesar do cenário desafiador, 65% dos aposentados afirmam que se planejaram financeiramente para essa fase da vida. O objetivo é reduzir a dependência exclusiva do benefício previdenciário e ter maior previsibilidade no orçamento.
Segundo a especialista da Serasa em educação financeira, Aline Vieira, o planejamento continua sendo fundamental mesmo após a aposentadoria, com foco no controle de gastos, revisão de prioridades e uso consciente do crédito.
Crédito como alerta, não como solução permanente
O aumento do uso de empréstimos entre aposentados acende um sinal de alerta sobre a sustentabilidade financeira dessa parcela da população. Embora o crédito possa ajudar em momentos pontuais, seu uso contínuo para despesas básicas indica um desequilíbrio estrutural entre renda e custo de vida.
O desafio agora é ampliar a educação financeira, fortalecer políticas de proteção ao aposentado e criar alternativas que garantam mais segurança econômica a quem já contribuiu por décadas com o país.





