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Maior coca já registrada é localizada entre duas nações europeias

Por Leticia Florenço
12/01/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Durante séculos, o fundo do Estreito de Øresund manteve oculto um dos mais impressionantes testemunhos do comércio marítimo medieval europeu.

A descoberta recente de um enorme navio cargueiro, entre a Dinamarca e a Suécia, trouxe à tona evidências concretas de como o mar era a principal via de integração econômica no norte da Europa no início do século XV.

O achado ocorreu de forma inesperada, durante estudos do solo para a construção do novo distrito artificial de Lynetteholm, em Copenhague.

A maior coca já identificada pela arqueologia

A embarcação descoberta é uma coca, o tipo de navio mercante mais comum da Idade Média, mas em dimensões jamais registradas até agora.

Batizada de Svælget 2, ela mede cerca de 28 metros de comprimento, 9 metros de largura e aproximadamente 6 metros de altura, com capacidade estimada para transportar até 300 toneladas de carga.

Essas proporções superam todas as cocas conhecidas e indicam um nível avançado de planejamento econômico e tecnológico.

Construção naval e comércio altamente organizados

As análises revelam que o navio foi construído por volta de 1410, em um contexto de intenso crescimento comercial. Um navio desse porte só poderia operar em um sistema bem estruturado, com rotas comerciais estáveis, portos preparados e investidores capazes de financiar empreendimentos caros e arriscados.

Ele era destinado ao transporte de mercadorias essenciais, como sal, madeira, tijolos e alimentos, reforçando a importância dos produtos do cotidiano no comércio de longa distância medieval.

Materiais de diferentes regiões da Europa

O estudo dos anéis das árvores mostrou que a coca possuía uma origem internacional. As tábuas do casco foram feitas com carvalho da região da Pomerânia, atual Polônia, enquanto partes estruturais vieram de áreas que hoje pertencem aos Países Baixos.

Essa combinação demonstra que os materiais eram transportados por longas distâncias até centros especializados em construção naval, evidenciando cadeias produtivas sofisticadas e integradas.

Um estado de preservação raro e valioso

Localizado a cerca de 13 metros de profundidade, o Svælget 2 permaneceu protegido da ação intensa das ondas. O lado estibordo está quase completamente preservado, da quilha até o bordo superior.

Esse nível de conservação permite aos pesquisadores observar detalhes raros da aparelhagem, oferecendo novas informações sobre o posicionamento de mastros, velas e cordas, elementos que, até então, eram conhecidos principalmente por representações artísticas.

Castelos de proa e popa finalmente confirmados

A escavação trouxe as primeiras evidências arqueológicas claras dos chamados castelos das cocas, estruturas elevadas em madeira localizadas na proa e na popa.

Restos bem preservados de um castelo de popa revelam a existência de um convés coberto, que oferecia abrigo à tripulação e melhores condições de trabalho em comparação com navios mais antigos, que possuíam conveses abertos.

Uma cozinha medieval em pleno alto-mar

Entre as descobertas mais surpreendentes está uma cozinha construída com cerca de 200 tijolos e telhas, considerada a mais antiga já encontrada em águas dinamarquesas.

No local, foram identificadas panelas, tigelas de cerâmica e restos de alimentos, indicando que os marinheiros preparavam refeições quentes durante as viagens. Esse detalhe revela uma rotina marítima mais estruturada e humana do que se imaginava.

Objetos pessoais e a vida cotidiana dos marinheiros

Além das estruturas do navio, os arqueólogos encontraram objetos pessoais que ajudam a reconstruir o dia a dia da tripulação.

Sapatos, pentes, contas de rosário e pratos de madeira pintados mostram que, mesmo em longas travessias, os marinheiros mantinham hábitos, crenças e pequenas rotinas que lembravam a vida em terra firme.

Apesar de seu tamanho impressionante, não há indícios de que o Svælget 2 tenha sido usado para fins militares. A ausência de armamentos e de lastro sugere que o navio estava totalmente carregado no momento do naufrágio.

O conteúdo transportado provavelmente se perdeu quando o porão, que não era totalmente selado, acabou inundado.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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