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Juízes estão ficando mais rigorosos com a Lei do Superendividamento porque muitos devedores estão usando ela errado

Por Leticia Florenço
01/06/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Justiça - Reprodução/iStock

Justiça - Reprodução/iStock

A crise financeira enfrentada por milhões de famílias brasileiras fez aumentar significativamente a procura pela chamada Lei do Superendividamento.

Criada para proteger consumidores que perderam a capacidade de pagar suas dívidas sem comprometer despesas básicas de sobrevivência, a legislação virou uma alternativa para quem busca reorganizar a vida financeira.No entanto, o avanço acelerado das ações judiciais começou a acender um alerta no Judiciário.

Magistrados de diferentes regiões do país passaram a analisar os pedidos com mais cautela depois de identificarem casos em que a lei estaria sendo usada de forma inadequada, principalmente por pessoas que tentam transformar a renegociação em uma espécie de “perdão automático” das dívidas.

O endurecimento das decisões já aparece nos tribunais, com crescimento no número de processos rejeitados por ausência de boa-fé ou por pedidos considerados incompatíveis com os objetivos da legislação.

O que é a Lei do Superendividamento e como ela funciona

A Lei do Superendividamento entrou em vigor no Brasil em 2022 após alterações no Código de Defesa do Consumidor.

O principal objetivo da norma foi criar mecanismos para ajudar consumidores que ficaram excessivamente endividados a renegociarem seus débitos de maneira organizada e supervisionada pela Justiça. Na prática, o modelo funciona de forma semelhante a uma recuperação judicial aplicada às pessoas físicas.

O consumidor apresenta sua situação financeira, reúne os credores e tenta estabelecer um plano de pagamento que preserve o chamado “mínimo existencial”, ou seja, os recursos necessários para manter despesas básicas como alimentação, moradia, saúde e transporte.

A legislação surgiu em um cenário de forte crescimento do endividamento das famílias brasileiras, impulsionado principalmente pelo uso intenso do cartão de crédito, empréstimos pessoais e financiamentos.

Consumidores confundem renegociação com cancelamento das dívidas

A popularização da legislação acabou criando interpretações equivocadas nas redes sociais e até entre alguns consumidores.

Muita gente passou a acreditar que entrar com ação judicial seria suficiente para cancelar dívidas ou impedir cobranças de forma definitiva. Porém, a proposta da lei nunca foi apagar débitos automaticamente.

O objetivo é criar um ambiente de negociação coletiva entre consumidor e credores para permitir pagamentos possíveis dentro da realidade financeira da pessoa.

Na prática, a dívida continua existindo. O que pode acontecer é um alongamento dos prazos, redução de juros, reorganização das parcelas e criação de um plano mais viável para pagamento.

Qualquer tentativa de usar a legislação apenas para evitar pagamentos tende a enfrentar resistência crescente nos tribunais.

Dívidas empresariais não entram na proteção da lei

Outro erro comum acontece quando consumidores tentam incluir na renegociação dívidas ligadas a empresas ou atividades comerciais.

A Lei do Superendividamento protege apenas débitos de consumo pessoal, como cartão de crédito, empréstimos bancários, crediários e financiamentos para uso próprio.

Já dívidas relacionadas a negócios, empresas ou atividade profissional normalmente não entram na proteção da legislação. Esse detalhe também passou a receber maior atenção dos magistrados, que vêm recusando processos fora dos critérios legais.

Justiça aumenta fiscalização contra tentativas de fraude

Além do uso inadequado da lei, especialistas relatam aumento de práticas consideradas fraudulentas por parte de alguns devedores.

Entre as situações monitoradas estão ocultação de patrimônio, transferência de bens para terceiros, esvaziamento de contas bancárias e movimentações financeiras suspeitas.

Os credores utilizam cada vez mais ferramentas tecnológicas e mecanismos legais para localizar patrimônio e identificar possíveis fraudes. Por isso, estratégias baseadas na ideia de que a dívida simplesmente “vai desaparecer com o tempo” podem acabar gerando problemas ainda maiores ao consumidor.

Negociação direta ainda é considerada a alternativa mais eficiente

Apesar da existência da lei, especialistas recomendam que o consumidor tente primeiro negociar diretamente com bancos, financeiras e empresas credoras.

A negociação extrajudicial costuma ser mais rápida, menos burocrática e menos desgastante para todas as partes envolvidas. A ação judicial geralmente deve ser utilizada apenas quando todas as tentativas anteriores falham.

Além disso, entrar na Justiça exige documentação detalhada, comprovação de renda, transparência patrimonial e apresentação de propostas consideradas realistas pelos magistrados.

Educação financeira ganha importância diante do aumento das dívidas

Especialistas reforçam que a Lei do Superendividamento continua sendo uma ferramenta importante de proteção social, mas seu uso exige responsabilidade.

O consumidor precisa entender que a legislação não elimina obrigações financeiras, mas busca permitir uma reorganização equilibrada das dívidas sem destruir completamente a capacidade de sobrevivência da família.

Por isso, educação financeira, controle de gastos e planejamento continuam sendo fundamentais para evitar que o endividamento saia do controle.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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