Um cenário onde a arte imita a vida e os moradores viram personagens. Essa é a realidade de Cabaceiras, município encravado no coração do Cariri paraibano, que conquistou o título simbólico de “Roliúde Nordestina” — não por acaso.
Com pouco mais de 5 mil habitantes, a cidade se transformou em um verdadeiro estúdio a céu aberto para o cinema nacional.
Foi o aclamado “Auto da Compadecida”, baseado na obra do mestre Ariano Suassuna, que deu o pontapé inicial. Desde sua exibição, Cabaceiras passou a figurar no radar de cineastas, diretores e roteiristas que buscam paisagens autênticas e uma atmosfera culturalmente rica.
Um palco natural para a sétima arte
Ao longo dos últimos 20 anos, mais de 50 produções audiovisuais foram gravadas no município, que hoje é considerado um dos destinos cinematográficos mais importantes do país. As ruas de paralelepípedo, as casas coloridas e a paisagem semiárida do sertão conferem uma estética única às narrativas filmadas ali.
O que mais chama atenção é a relação afetiva entre os moradores e o cinema. “A gente nem precisa fazer força, o cinema vem até nós”, brinca Joelma Gouveia, crocheteira local que já virou espectadora assídua dos bastidores de filmagens em sua rua.
Do anonimato à tela: histórias de quem virou ator por acaso
Um dos rostos mais conhecidos dessa transformação é o de José Carlos da Silva, agricultor de 81 anos que participou de “O Auto da Compadecida” como responsável pelos animais usados nas cenas. “Tinha que estar tudo no jeito logo cedo, gado no ponto e cenário vivo”, recorda, com orgulho.
Outro exemplo é o de Manoel Batista de Lima, marceneiro de segunda a sexta e figurante aos fins de semana. “Participei daquela cena de tiroteio, correria, todo mundo se jogando no chão… e eu estava no meio!”, conta, aos risos. Aos 78 anos, ele não hesita em afirmar: “Ser figurante aqui é tão gratificante quanto meu trabalho de marcenaria”.
Cabaceiras: mais que locação, uma identidade cinematográfica
Hoje, andar pelas ruas de Cabaceiras é como percorrer um cenário vivo de cinema. Cada esquina carrega uma lembrança de filmagem, cada fachada guarda uma história de bastidores. O envolvimento da população é tamanho que muitos já consideram a produção audiovisual parte da cultura local.
Mais do que uma cidade cenográfica, Cabaceiras se firmou como um exemplo de como a produção cultural descentralizada pode impulsionar a economia, fortalecer a identidade regional e revelar talentos que, em outras circunstâncias, talvez nunca tivessem pisado em um set de filmagem.






