Durante décadas, a prevenção das doenças cardiovasculares esteve centrada quase exclusivamente no controle do colesterol, da pressão arterial e do estilo de vida.
Embora esses fatores continuem essenciais, pesquisas recentes mostram que existe um risco silencioso e pouco discutido: a lipoproteína(a), ou Lp(a). Esse marcador genético pode aumentar significativamente as chances de infarto e AVC, mesmo em pessoas consideradas saudáveis.
O que torna a lipoproteína(a) tão perigosa
A Lp(a) é semelhante ao LDL, conhecido como colesterol ruim, mas possui uma proteína adicional que facilita sua aderência às paredes das artérias. Esse comportamento favorece inflamação, acelera a formação de placas e dificulta o fluxo sanguíneo.
Com o tempo, essas alterações aumentam a probabilidade de eventos cardiovasculares graves, muitas vezes de forma inesperada.
Uma condição genética difícil de detectar
Diferentemente do colesterol comum, os níveis de lipoproteína(a) são definidos quase totalmente pela genética. Dieta equilibrada, exercícios físicos e perda de peso têm pouco efeito sobre sua concentração no sangue.
Além disso, o exame não faz parte da rotina médica, o que contribui para o subdiagnóstico. Estima-se que cerca de 20% da população mundial tenha níveis elevados sem saber.
Novos medicamentos que atacam a causa do problema
Esse cenário começa a mudar com o avanço de medicamentos desenvolvidos especificamente para reduzir a produção da Lp(a) no fígado. Entre eles, o pelacarsen é o mais adiantado e já demonstrou reduções de até 80% nos níveis da partícula.
Outros fármacos, como olpasiran e lepodisiran, apresentaram resultados ainda mais expressivos, alguns próximos de 100%, utilizando tecnologias de silenciamento gênico.
Caso os estudos confirmem que a redução da Lp(a) diminui efetivamente infartos e derrames, o impacto na saúde pública poderá ser significativo. A expectativa é de menos internações, menos procedimentos invasivos e maior qualidade de vida para milhões de pessoas que hoje convivem com um risco oculto.
A importância do rastreamento precoce
Enquanto esses medicamentos não chegam amplamente ao mercado, especialistas defendem que o teste de lipoproteína(a) seja feito ao menos uma vez na vida.
A recomendação é ainda mais forte para pessoas com histórico familiar de infarto precoce ou AVC, já que a identificação antecipada do risco pode orientar cuidados mais rigorosos.
O que muda nos próximos anos
Os resultados finais dos ensaios clínicos mais avançados são esperados para 2026 e podem redefinir as diretrizes de prevenção cardiovascular em todo o mundo.
Se confirmada a eficácia, a lipoproteína(a) deixará de ser um fator ignorado e passará a ocupar um papel central na medicina preventiva, inaugurando uma nova era no combate aos infartos.






