A ciência das pegadas fósseis, conhecida como icnologia, pode estar prestes a receber um impulso tecnológico inédito.
Pesquisadores desenvolveram um método baseado em inteligência artificial (IA) capaz de classificar pegadas de dinossauros, uma tarefa que há décadas dependia da interpretação subjetiva dos paleontólogos.
O avanço promete tornar a análise mais objetiva e acelerar descobertas sobre os gigantes que habitaram a Terra há milhões de anos.
A importância das pegadas fósseis
Diferente dos ossos e garras fossilizados, as pegadas são mais abundantes e podem revelar detalhes únicos sobre o comportamento e o ambiente dos dinossauros. Elas registram informações sobre o modo de locomoção, indicando se o animal caminhava, corria ou até nadava.
Também permitem estimar o tamanho e a força do dinossauro, mostrando a área de contato do pé com o solo, e oferecem pistas sobre interações entre espécies, demonstrando se diferentes dinossauros compartilhavam o mesmo habitat.
Além disso, ajudam a reconstruir o ambiente paleoecológico, indicando a umidade, o tipo de solo e características do terreno onde viveram.
Como a IA transforma a análise
O estudo, publicado no periódico PNAS, analisou 1.974 silhuetas de pegadas fósseis usando um algoritmo de inteligência artificial. A IA identificou oito características principais que ajudam a diferenciar os rastros:
- Carga e forma geral: Refletindo a área de contato da pata.
- Posição da carga: Distribuição do peso sobre a pegada.
- Distância entre os dedos: Ajuda a distinguir espécies com dedos mais largos ou estreitos.
- Ligação dos dedos ao pé: Padrão anatômico do animal.
- Posição do calcanhar: Ponto de apoio do membro traseiro.
- Carga do calcanhar: Intensidade da pressão exercida.
- Ênfase relativa dos dedos em relação ao calcanhar: Aponta se a pegada é mais “dedal” ou mais “plana”.
- Discrepância entre os lados esquerdo e direito: Variações que indicam diferenças de movimento ou deformações no solo.
Os desafios ainda presentes
Mesmo com a IA, classificar pegadas continua sendo uma tarefa complexa. Como explica o físico Gregor Hartmann, o mesmo dinossauro pode deixar pegadas muito diferentes, dependendo de fatores como velocidade, terreno, umidade e sedimentação.
Steve Brusatte, paleontólogo da Universidade de Edimburgo, ressalta a grande variação de tamanho, que vai desde pequenas pegadas de carnívoros, parecidas com patas de galinha, até enormes marcas de saurópodes de pescoço longo.
Um caso memorável citado pelo especialista foi quando um esqueleto foi encontrado no final de uma trilha de pegadas, provando a ligação direta entre rastro e criador. Para ele, o trabalho do paleontólogo é parecido com o príncipe da Cinderela: encontrar o “pé” que se encaixa perfeitamente na pegada.
Impacto para a paleontologia
O uso de IA para classificar pegadas abre portas para novas pesquisas sobre ecologia, comportamento e evolução dos dinossauros. A tecnologia reduz a subjetividade, acelera o trabalho de campo e cria bancos de dados globais de pegadas fósseis, permitindo comparações detalhadas entre diferentes regiões.
Com isso, cientistas podem reconstruir ecossistemas antigos de forma mais precisa, aproximando-se cada vez mais de uma compreensão completa da vida pré-histórica.





