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Geração Z muda o jogo e derruba o crime organizado no Japão

Por Leticia Florenço
01/06/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Japão - Reprodução/iStock

Japão - Reprodução/iStock

Ao contrário do que se imagina sobre organizações criminosas comuns, os Yakuza no Japão possuem uma estrutura única, marcada por tradições fortes, visibilidade pública e uma relação paradoxal com a sociedade.

Eles não são meros criminosos escondidos; muitos são ostensivos, atuam em nichos ilícitos definidos como “crimes sem vítima”, tráfico, jogos ilegais, contrabando, e até mesmo se envolvem em publicações oficiais, como revistas e quadrinhos.

Essa relação simbiótica com a sociedade, tolerada por muitos japoneses e até mesmo por parte da polícia, cria um ambiente onde o crime organizado convive com certa normalidade, e as tensões se resolvem com violência corporal, não com armas, refletindo a baixíssima taxa de homicídios no país.

Tradicional hierarquia e os mitos que cercam os Yakuza

As organizações Yakuza são fortemente hierarquizadas, guiadas por um código de honra quase medieval. Um dos mitos mais conhecidos, o corte de falange como punição, embora baseado em práticas reais, é mais um ato voluntário do infrator que um castigo imposto diretamente pela liderança.

Essa rigidez estrutural, no entanto, não impediu o desenvolvimento de mecanismos de sobrevivência criativos, como o uso de “laranjas” para driblar restrições legais, já que as leis japonesas impedem os Yakuza de operar abertamente no sistema financeiro tradicional ou adquirir bens em seu nome.

Legislação contra os Yakuza

Nos últimos anos, o governo japonês criou uma série de leis para dificultar a vida das organizações criminosas, restringindo suas operações financeiras e patrimoniais. Contudo, essas medidas geram mais dificuldades burocráticas do que desmantelamento real, já que o “jeitinho japonês” e as redes informais ainda sustentam suas operações.

A legislação, portanto, ainda não tem conseguido derrubar as estruturas tradicionais das Yakuza, pois a mudança real está acontecendo em outro campo: o da cultura e comportamento das novas gerações.

Impacto da Geração Z

A grande revolução que ameaça o domínio dos Yakuza vem da juventude japonesa, a Geração Z. Diferente dos pais e avós, esses jovens não enxergam mais o trabalho duro, a obediência cega e o sacrifício físico como virtudes a serem perseguidas. Eles buscam qualidade de vida, liberdade e identificação com culturas pop, como mangás, animes e influenciadores digitais.

As tatuagens massivas, símbolo clássico da Yakuza, causam repulsa; o estilo de vida tradicional parece ultrapassado, com muitos jovens preferindo morar na casa dos pais, evitar responsabilidades pesadas e perseguir carreiras ligadas à internet e à cultura digital.

Envelhecimento das organizações e o esvaziamento das bases

Com a falta de jovens interessados em ingressar nas fileiras Yakuza, essas organizações envelhecem rapidamente. A ausência de renovação nas camadas inferiores da hierarquia enfraquece o sistema como um todo, dando à impressão de um “crime organizado de idosos”.

Esse fenômeno é crucial, pois o sucesso das organizações dependia da disposição e capacidade dos jovens para atuar em atividades que exigem disposição física, coragem e um código de conduta rígido. Sem isso, o modelo tradicional de Yakuza perde sua força.

O futuro do crime organizado no Japão

Embora a Geração Z não esteja renovando as fileiras da Yakuza, não significa que o crime organizado desaparecerá. Há possibilidades variadas:

  • Transformação interna: A Geração Z pode criar um novo estilo de crime organizado, menos violento, mais tecnológico e flexível, com jornadas reduzidas, valorização do lazer e uso intensivo de redes digitais.
  • Invasão estrangeira: Organizações internacionais podem aproveitar a decadência dos Yakuza para expandir sua influência no Japão, talvez se aliando aos remanescentes locais.
  • Mudança para outras áreas: Com a inovação tecnológica, podem surgir novos “mercados” ilegais ligados a crimes cibernéticos, economia digital paralela e outras atividades.

Essa nova realidade abre espaço para novas formas de criminalidade, mas também para oportunidades de reflexão sobre estratégias de prevenção e intervenção social, tanto no Japão quanto em outras partes do mundo.

Dúvidas, críticas ou sugestões? Fale com o nosso time editorial.
Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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