Nos morros de Santos, em São Paulo, uma ameaça silenciosa tem deixado marcas não apenas na pele dos moradores, mas também no tecido social da cidade, a esporotricose.
Esta infecção causada pelo fungo Sporothrix, presente no solo, em plantas e, mais preocupante, na pele de gatos, tem feito vítimas entre humanos e animais, especialmente nas comunidades do Morro do Pacheco e Morro São Bento.
A doença por trás das feridas
A esporotricose é uma micose subcutânea, ou seja, afeta as camadas mais profundas da pele. Pode parecer uma infecção simples à primeira vista, mas sem tratamento adequado evolui para lesões ulceradas e persistentes.
A transmissão para humanos ocorre, majoritariamente, através do arranhão ou mordida de gatos infectados, que contraem o fungo ao cavar a terra, o ambiente natural do Sporothrix. A infecção também pode acontecer pelo contato com farpas, palhas ou lascas de madeira contaminadas.
Gatos de rua
O cenário se complica quando se observa o papel dos gatos de rua, especialmente os chamados “semi-domiciliados”, animais que vivem parte do tempo em lares e parte nas ruas. Esses gatos circulam livremente, e quando contaminados, tornam-se vetores da doença.
Os animais infectados são vistos frequentemente perto de locais com acúmulo de lixo, como o retorno da Rua Oito, o que reforça o ciclo de abandono e contágio.
O poder público
Embora a ação tenha atingido 280 pessoas, o impacto parece limitado diante da falta de estrutura para recolhimento dos animais. A própria Ouvidoria Municipal reconhece que os gatos doentes circulam pelas ruas, mas responsabiliza os tutores, mesmo quando esses animais são visivelmente abandonados.
O caso se agrava quando se percebe que não há protocolo emergencial para recolher animais infectados sem tutor identificado, o que permite a continuidade da cadeia de transmissão.
Desinformação e confusão nos postos de saúde
Um esforço recente de conscientização foi feito na Policlínica do São Bento, que atende as duas comunidades afetadas. Lá, profissionais do Grupo IEC relataram que muitos moradores confundem a esporotricose com câncer ou outras doenças de pele, o que atrasa ainda mais o tratamento.
A falta de informação, portanto, se junta à falta de recursos, criando um cenário propício à disseminação da doença.
O que fazer
A Prefeitura indica que tutores devem levar animais com suspeita de infecção até uma das unidades da Codevida, espalhadas por bairros como Jabaquara, Jardim Botânico, Caruara e Monte Cabrão.
Já em caso de suspeita de contaminação em humanos, feridas que não cicatrizam, após contato com animais de rua ou plantas, o paciente deve procurar a policlínica da sua região. O tratamento é feito por via oral, com antifúngicos específicos.





