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Fóssil de 518 milhões de anos revela predador marinho gigante

Por Leticia Florenço
04/08/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Reconstrução da espécie Nektognathus evasmithae nadando no mar do Cambriano. — Foto: Bob Nicholls

Reconstrução da espécie Nektognathus evasmithae nadando no mar do Cambriano. — Foto: Bob Nicholls

A paleontologia acaba de ser surpreendida por uma descoberta que reconfigura parte da história evolutiva dos animais marinhos. Um fóssil com 518 milhões de anos, encontrado no remoto norte da Groenlândia, revelou a existência de um predador marinho ancestral até então mal compreendido: o Nektognathus evasmithae.

Ao contrário do que se pensava, esse organismo não era um ancestral dos cefalópodes (como lulas e polvos), mas sim descendente direto dos quetognatos, também conhecidos como vermes-flecha. Essa revelação altera de forma significativa a árvore filogenética de importantes linhagens marinhas.

A escavação no “arquivo natural” do Cambriano

O local da descoberta é o sítio paleontológico Sirius Passet, uma verdadeira cápsula do tempo que guarda registros de organismos da Explosão Cambriana, evento ocorrido há cerca de 541 milhões de anos, que marcou o surgimento de diversos filos animais.

Há quase uma década, expedições lideradas por pesquisadores da Universidade de Bristol vêm escavando a região.

O nível de preservação dos fósseis é tão impressionante que permitiu estudar, além das estruturas externas, partes moles como sistemas digestivos, musculaturas e até nervos, um feito raríssimo na paleontologia.

De “mini-lula” a “verme-flecha”

Até recentemente, os nectocaridídeos eram considerados possíveis ancestrais de cefalópodes devido à sua forma corporal e modo de locomoção aquática. No entanto, Jakob Vinther e sua equipe notaram inconsistências anatômicas nessa classificação.

O estudo, publicado na revista Science Advances, mostrou que os nectocaridídeos compartilham traços anatômicos muito mais compatíveis com os vermes-flecha. Um dos principais indícios foi a presença do gânglio ventral, uma massa nervosa característica dos quetognatos e ausente em cefalópodes.

O papel dos fósseis na reconstituição evolutiva

Foram analisados 25 espécimes do antigo animal marinho, todos com idade estimada em 518 milhões de anos. A riqueza de detalhes anatômicos, especialmente do sistema nervoso fossilizado, permitiu estabelecer com mais precisão onde o Nektognathus evasmithae se encaixa na árvore da vida.

Esse grau de preservação é incomum e só foi possível graças às condições excepcionais do Sirius Passet, onde a decomposição foi seguida pela substituição mineral, em especial com fosfato, de estruturas internas.

Os nectocaridídeos não apenas nadavam com agilidade, como também possuíam olhos complexos, semelhantes a câmeras, muito diferentes dos olhos simples dos vermes-flecha modernos, que mal distinguem a direção da luz.

Esse tipo de visão avançada sugere um predador altamente visual, capaz de detectar e caçar presas móveis com precisão. Esse grau de complexidade sensorial e motora evidencia que os vermes-flecha ancestrais ocupavam o topo da cadeia alimentar nos oceanos do Cambriano.

Carnívoro, grande e ameaçador

Outro dado impactante: o tamanho. Enquanto os vermes-flecha atuais são pequenos e discretos, o Nektognathus era grande, musculoso e equipado com antenas e sistemas de natação eficientes. Evidências diretas do seu comportamento alimentar também foram encontradas.

O conteúdo do sistema digestivo fossilizado continha organismos do gênero Isoxys, dotados de carapaça rígida, parecida com a de artrópodes, e capazes de nadar rapidamente. Ou seja, esse predador não se alimentava de presas fáceis: ele caçava criaturas ativas e bem protegidas.

O nome científico dado ao novo fóssil é uma homenagem à ativista e professora de direito Eva Smith. A escolha não foi aleatória.

Jakob Vinther, principal autor do estudo, destacou que o animal representava um lutador furtivo e inteligente, qualidades que associou à trajetória de Smith em sua atuação pelos direitos humanos.

A analogia entre a biologia e a história humana, nesse caso, reforça o valor simbólico que descobertas científicas podem carregar.

Semelhanças evolutivas enganosas

Por fim, os cientistas chamam atenção para o fenômeno de evolução convergente, quando diferentes organismos evoluem formas semelhantes em resposta a pressões ambientais parecidas. É por isso que os nectocaridídeos, apesar de não serem lulas, desenvolveram estruturas corporais semelhantes a elas.

Assim como baleias se parecem com peixes, mesmo sendo mamíferos, os nectocaridídeos adotaram formas que os tornaram eficazes nadadores predadores, ainda que pertencessem a uma linhagem totalmente distinta.

A descoberta do Nektognathus evasmithae redefine o entendimento sobre o papel dos vermes-flecha na história evolutiva dos oceanos e fortalece a importância do estudo de fósseis bem preservados. Também demonstra como hipóteses científicas podem, e devem, ser revisitadas diante de novas evidências.

Em tempos de avanços tecnológicos, o passado ainda guarda segredos que desafiam nosso conhecimento e ampliam nossa compreensão sobre a diversidade e complexidade da vida.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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