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Fóssil de 275 milhões de anos revela espécie desconhecida no Nordeste

Por Leticia Florenço
08/03/2026
Em Colunas, Mais Tendências
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Representação artística da espécie Tanyka amnicola, que viveu durante o período Permiano — Foto: Vitor Silva

Representação artística da espécie Tanyka amnicola, que viveu durante o período Permiano — Foto: Vitor Silva

Uma descoberta científica realizada no Nordeste do Brasil chamou a atenção da comunidade internacional de paleontologia.

Pesquisadores identificaram uma criatura pré-histórica incomum a partir de fósseis encontrados na região, revelando uma espécie que viveu há cerca de 275 milhões de anos, muito antes do surgimento dos dinossauros.

O estudo foi publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B e descreve uma nova espécie batizada de Tanyka amnicola, um antigo vertebrado que possuía características anatômicas bastante peculiares.

A descoberta ajuda cientistas a compreender melhor como eram os ecossistemas que existiam no planeta durante o período Permiano.

Uma criatura que viveu antes dos dinossauros

O Tanyka amnicola pertence a um grupo primitivo de vertebrados chamado Tetrápodes, animais que possuem quatro membros e que, ao longo da evolução, deram origem a diversos grupos modernos como répteis, aves, mamíferos e anfíbios.

Mesmo vivendo em um período extremamente antigo, essa espécie já representava uma linhagem evolutiva considerada arcaica. Por isso, os pesquisadores a descrevem como algo semelhante a um “fóssil vivo”, ou seja, um organismo que preservava características muito antigas mesmo para a sua época.

O estudo foi liderado pelo pesquisador Jason Pardo, associado ao Field Museum, em Chicago. Segundo ele, a descoberta revela uma linhagem de animais cuja sobrevivência até aquele período ainda não era conhecida pelos cientistas.

Para explicar a singularidade da espécie, Pardo comparou sua evolução à de um animal moderno bastante peculiar: o ornitorrinco, conhecido por possuir características que parecem pertencer a diferentes grupos de animais.

Mandíbulas curiosas encontradas no Nordeste

A identificação da nova espécie foi possível graças à descoberta de nove mandíbulas fossilizadas encontradas no leito seco de um rio na região Nordeste do Brasil.

Cada mandíbula mede aproximadamente 15 centímetros de comprimento e apresenta uma característica que intrigou os cientistas por anos: uma torção incomum que faz com que os dentes apontem para os lados, em vez de apontarem para cima como acontece na maioria dos tetrápodes.

Inicialmente, os pesquisadores acreditaram que a deformação poderia ter sido causada por processos geológicos ou danos durante a fossilização. Porém, após encontrar vários exemplares com exatamente a mesma estrutura, ficou claro que se tratava de uma característica natural da espécie.

Uma forma incomum de se alimentar

A anatomia da mandíbula revelou ainda outro detalhe surpreendente. Na parte interna do osso existem pequenas estruturas semelhantes a dentes chamadas dentículos, que formam uma superfície ideal para triturar alimentos.

Essa estrutura indica que o animal provavelmente não mastigava sua comida da mesma forma que muitos outros vertebrados primitivos. Em vez disso, ele triturava os alimentos, o que sugere um comportamento alimentar diferente do padrão observado em espécies da mesma época.

Os cientistas levantam duas hipóteses principais sobre sua dieta:

  • Alimentação baseada em pequenos invertebrados aquáticos
  • Consumo de material vegetal encontrado em ambientes de água doce

Se confirmada, a segunda hipótese seria particularmente interessante, já que a maioria dos tetrápodes primitivos era predominantemente carnívora.

Aparência provável do animal

Como apenas mandíbulas foram encontradas até o momento, os pesquisadores ainda não conhecem todos os detalhes da anatomia do animal. Mesmo assim, comparações com espécies relacionadas permitiram criar uma estimativa de sua aparência.

Acredita-se que o Tanyka amnicola poderia se parecer com uma grande salamandra, porém com um focinho mais alongado. O animal possivelmente chegava a cerca de 90 centímetros de comprimento e vivia em ambientes aquáticos.

As rochas onde os fósseis foram encontrados indicam que ele habitava áreas de água doce, como lagos, lagoas ou rios de fluxo lento.

O mundo quando o animal viveu

Quando essa criatura habitava o planeta, a configuração dos continentes era completamente diferente da atual. O território que hoje corresponde ao Brasil fazia parte do gigantesco supercontinente Gondwana, que reunia diversas massas de terra que hoje formam a América do Sul, África, Antártica, Austrália e Índia.

Nesse período remoto, os ecossistemas eram dominados por formas de vida muito diferentes das atuais, e os tetrápodes estavam apenas começando a diversificar suas estratégias de sobrevivência.

Um passado extremamente distante

Cada novo fóssil descoberto é como uma peça adicional em um enorme quebra-cabeça sobre a história da vida na Terra. A identificação do Tanyka amnicola demonstra que ainda existem muitas espécies desconhecidas esperando para serem reveladas pelos registros geológicos.

Além de enriquecer o conhecimento científico, descobertas desse tipo mostram que regiões do Brasil continuam sendo extremamente importantes para a paleontologia mundial.

O Nordeste, em especial, guarda registros geológicos capazes de revelar capítulos inteiramente novos da história da vida no planeta.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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