Uma nova disputa envolvendo aplicativos de entrega começou a movimentar o mercado digital brasileiro. O Ministério da Justiça abriu um processo contra iFood e Keeta após identificar falhas na forma como os apps mostram a divisão do dinheiro pago pelos consumidores.
A discussão vai além das tradicionais taxas de entrega. O governo quer que os usuários consigam enxergar, de maneira clara, quem fica com cada parte do valor cobrado no pedido.
A medida colocou novamente os entregadores no centro do debate e levantou questionamentos sobre o funcionamento financeiro das plataformas.
O que estaria escondido nos recibos
Segundo a Secretaria Nacional do Consumidor, os aplicativos deveriam informar detalhadamente:
- Quanto o cliente pagou no total;
- Quanto a plataforma reteve;
- Qual parte ficou com o restaurante;
- Quanto foi destinado ao entregador;
- Valor das gorjetas.
A avaliação do governo é de que as informações atuais ainda confundem os consumidores e não deixam evidente quanto realmente chega ao bolso dos motoboys.
Na prática, muitas pessoas acreditam que boa parte da taxa de entrega é repassada diretamente ao trabalhador, mas os órgãos de defesa do consumidor afirmam que os aplicativos precisam deixar essa divisão totalmente transparente.
Aplicativos ganharam prazo, mas problema continuou
As empresas tiveram dois meses para adaptar seus sistemas após a criação da nova norma federal. O prazo, inicialmente menor, acabou ampliado justamente para facilitar as mudanças técnicas nas plataformas.
Mesmo assim, o governo concluiu que iFood e Keeta não atenderam completamente às exigências.
A situação foi diferente em aplicativos de transporte como Uber e 99, que já passaram a exibir informações mais detalhadas sobre os ganhos dos motoristas. Agora, as plataformas de delivery terão 20 dias para apresentar defesa antes da continuidade do processo administrativo.
Entregadores acompanham discussão com atenção
A investigação chamou atenção principalmente entre motoboys, que há anos reclamam da falta de clareza nos cálculos feitos pelos aplicativos.
Muitos entregadores afirmam que não conseguem compreender exatamente como as plataformas definem os valores pagos em cada corrida. Outros dizem que o cliente costuma imaginar que o trabalhador recebe mais do que realmente ganha.
Com a nova regra, a intenção do governo é tornar a divisão financeira visível tanto para consumidores quanto para parceiros cadastrados nos aplicativos. Representantes da categoria acreditam que a mudança pode aumentar a pressão por melhores pagamentos futuramente.
Keeta afirma que já segue modelo transparente
A Keeta informou que seus recibos já mostram a divisão entre plataforma, entrega e restaurante.
A empresa declarou manter compromisso com transparência e diálogo com autoridades brasileiras. O posicionamento busca reduzir o impacto negativo da investigação em um momento de crescimento da concorrência no mercado de entregas.
Nos bastidores, empresas acompanham o caso com receio de que novas regras acabem alterando o funcionamento econômico das plataformas digitais no país.
iFood reage e cobra diálogo das autoridades
Já o iFood adotou um tom mais crítico em relação ao governo. A empresa afirmou que a exigência demanda mudanças complexas na estrutura tecnológica do aplicativo e disse ter tentado abrir diálogo com a Secretaria Nacional do Consumidor diversas vezes nos últimos meses.
Segundo o aplicativo, pedidos formais de reunião teriam sido enviados entre fevereiro e maio sem resposta das autoridades.
O iFood também afirmou ter ficado surpreso com a abertura do processo e reforçou que segue buscando entendimento técnico sobre a implementação das novas regras.
Consumidor poderá descobrir quem fica com o dinheiro
A principal mudança defendida pelas autoridades é simples: permitir que o cliente veja exatamente para onde vai cada centavo pago no aplicativo. A intenção é acabar com dúvidas sobre taxas de entrega, repasses aos restaurantes e remuneração dos motoboys.
Se a regra for aplicada de forma definitiva, os recibos dos aplicativos devem ganhar um novo visual, exibindo informações detalhadas logo após cada pedido concluído.
Enquanto isso, o embate entre governo e plataformas promete continuar movimentando o setor de delivery nos próximos meses.






