Um novo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) expôs uma realidade incômoda: mesmo quem não tem redes sociais pode estar sendo monitorado.
O levantamento identificou que 8 das 17 plataformas digitais mais populares do Brasil coletam informações de pessoas que nunca criaram conta. Isso desmonta a ideia de que, ao evitar redes sociais, alguém automaticamente mantém sua privacidade.
O rastreamento acontece por meios indiretos, silenciosos e muitas vezes sem conhecimento do cidadão.
Como os dados são capturados sem que você tenha perfil
A prática utilizada pelas plataformas se chama mineração de dados. Funciona como um rastreamento automático que varre a internet em busca de informações públicas.
Um telefone que aparece em um anúncio de venda, seu nome em um comentário de terceiro, ou mesmo uma foto em que você aparece, podem alimentar bancos de dados.
Além disso, dispositivos deixam rastros, o navegador registra preferências, o dispositivo guarda identificadores e os sites carregam cookies que permitem monitoramento. A pessoa não participa, mas os dados participam por ela.
Redes sociais que não revelam o que fazem com os dados
Segundo o estudo da FGV, apenas TikTok e LinkedIn informaram aos pesquisadores quais dados haviam coletado via mineração. Outras plataformas, como Instagram, Facebook, Threads, Reddit, X/Twitter e YouTube, simplesmente não responderam.
A ausência de transparência é o principal problema, não se sabe o que está sendo armazenado, para que finalidade, e por quanto tempo esses registros permanecem arquivados. A sombra digital de um não usuário pode existir sem seu conhecimento.
A relação com a LGPD e o que as empresas deveriam fazer
O estudo analisou 16 critérios exigidos pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), incluindo transparência, finalidade do uso das informações e respeito às decisões automatizadas.
Nenhuma das 17 plataformas avaliadas cumpre integralmente a legislação. Um dos principais pontos ignorados pelas empresas era a obrigação de indicar o encarregado de dados, o profissional responsável por responder solicitações de usuários e da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
Em vez de um contato direto, as plataformas ofereciam apenas e-mails genéricos.
Erros, lacunas e quem teve os piores resultados
Alguns serviços demonstraram avanços, como Telegram e LinkedIn, que atendem plenamente à transparência no uso de decisões automatizadas. Já outras, como o Signal, ficaram na última posição, com políticas consideradas minimalistas e pouco esclarecedoras.
Apesar de prometer coletar o mínimo possível, o aplicativo não oferecia a transparência exigida pela lei. Meta e X (ex-Twitter) tiveram desempenho intermediário, cumprindo parte das exigências, mas ainda deixando questionamentos sem respostas.
A intervenção da ANPD e a suspensão da Meta
Diante do cenário nebuloso, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados ampliou sua fiscalização e passou a considerar o risco de dano de cada plataforma ao analisar casos.
Foi com base nesse novo modelo que, em 2024, a ANPD suspendeu temporariamente o uso de dados de brasileiros pela Meta em projetos de inteligência artificial. A suspensão só foi revertida após a empresa criar um formulário que permite até mesmo a não usuários solicitar a exclusão de seus dados.
É um avanço, mas também um alerta: os dados estavam sendo coletados antes mesmo dessa opção existir.
A resposta oficial do YouTube
Entre as plataformas contatadas, o YouTube foi a que apresentou a justificativa mais detalhada. Em nota, afirmou que não se considera rede social, mas sim plataforma de streaming.
Declarou coletar dados fornecidos pelo usuário, informações sobre o uso do serviço, localização e dados do aparelho. E admitiu algo relevante, mesmo sem login, algumas preferências são armazenadas por meio de identificadores do dispositivo. Em resumo, não é necessário estar conectado para ser observado.
Privacidade sob risco e exposição involuntária
A ausência de anonimização e a coleta automática trazem riscos concretos. Dados podem ser usados para treinar inteligências artificiais, para criar perfis de comportamento e até para alimentar sistemas de recomendação.
Quando se trata de crianças, adolescentes ou informações sensíveis, o impacto é ainda maior. Sem transparência, o indivíduo perde o poder de decidir sobre a própria identidade digital.
Proteger informações pessoais, portanto, não depende apenas do usuário, depende de fiscalização, de responsabilidade das empresas e de leis que garantam o direito à privacidade. A LGPD existe para isso. Mas, como revela a pesquisa, ainda há um longo caminho até que as plataformas a respeitem por completo.






