Itabaianinha, no interior de Sergipe, não é apenas mais uma cidade nordestina com raízes históricas e forte presença cultural. Ela é conhecida nacional e internacionalmente como a “Cidade dos Anões”, uma referência à notável concentração de pessoas com nanismo, especialmente na zona rural de Carretéis.
Essa particularidade, que chamou a atenção do mundo, é resultado de uma combinação rara de fatores genéticos, sociais e históricos, que transformaram o município em um verdadeiro símbolo de identidade, superação e resistência.
A genética por trás do fenômeno
A origem do nanismo em Itabaianinha está relacionada à Deficiência Isolada do Hormônio do Crescimento (DIGH), uma condição hereditária rara causada por mutações genéticas que impedem a produção adequada do hormônio do crescimento.
Diferente de outros tipos de nanismo, a DIGH gera baixa estatura (geralmente entre 1,05m e 1,35m), mas com proporções corporais normais.
Essa condição foi amplificada por um isolamento social e geográfico prolongado, além de casamentos consanguíneos ao longo de diversas gerações no povoado de Carretéis.
Em seu auge, a incidência chegou a 1 em cada 32 habitantes, uma taxa muito superior à média mundial, fazendo com que a cidade se tornasse objeto de estudo em diversas áreas da ciência, como a genética e a antropologia.
Impacto geracional e a construção de uma identidade
Com mais de oito gerações registradas, estima-se que mais de 130 pessoas tenham nascido com nanismo na região. A convivência comunitária e a presença significativa dessas pessoas no cotidiano da cidade geraram não apenas adaptação, mas também orgulho e pertencimento.
Em vez de esconder ou excluir, Itabaianinha passou a celebrar essa identidade única.
A expressão “cidade dos anões” ganhou um novo significado para os moradores: não um rótulo pejorativo, mas um símbolo de força e singularidade. Documentários, pesquisas, reportagens e até músicas reforçaram essa imagem.
A canção “Sou de Itabaianinha”, da banda Siri Mania, eterniza com orgulho essa parte essencial da história local.
Visibilidade além das fronteiras
A década de 1990 foi marcada por uma onda de interesse internacional. Veículos de comunicação como a CNN e jornais europeus realizaram reportagens sobre a cidade, ampliando sua notoriedade.
O italiano Marco Sanvoisin, ao visitar Itabaianinha, descreveu seus habitantes como personagens de conto de fadas, ressaltando a doçura e a peculiaridade de suas histórias.
Itabaianinha passou a ser referência para o estudo de comunidades genéticas isoladas e exemplo de como a biologia pode ser moldada por contextos culturais e históricos.
Trabalho, orgulho e superação
Mesmo diante das limitações físicas impostas pelo nanismo, a população afetada construiu uma trajetória marcada pela resiliência e inclusão parcial. Pessoas com DIGH atuam como comerciantes, educadores, artesãos, músicos e atletas.
Um dos ícones dessa história é Dona Pureza, primeira mulher com nanismo a se casar com um homem de estatura média, cuja história é contada com emoção em diversas reportagens.
A comunidade também se destaca por sua capacidade de organização, apoiando-se diante dos desafios e lutando por reconhecimento e respeito.
Avanços médicos e transformações demográficas
Nos últimos anos, a combinação de avanços na medicina, políticas públicas de saúde e maior acesso à informação permitiu que novos casos de nanismo fossem diagnosticados precocemente e tratados com hormônio do crescimento. Isso reduziu drasticamente a incidência da condição na nova geração.
Crianças que, no passado, teriam desenvolvido nanismo, hoje crescem com estaturas dentro da média, promovendo uma transição visual e social na cidade. O número de pessoas com DIGH diminui, mas o legado cultural permanece.
Para que a memória dessa comunidade não se perca, projetos como o projeto de lei nº 02/2020, da vereadora Lêda Maria Dantas, buscam registrar oficialmente o valor histórico e cultural das pessoas com nanismo em Itabaianinha.
Pesquisadores como Cleiton dos Santos, autor de uma monografia sobre o tema, alertam para a importância de se preservar o passado como ferramenta de identidade, aprendizado e orgulho para as futuras gerações.






