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Esperma de homem com condição rara foi usado para conceber bebês em 8 países

Por Leticia Florenço
09/07/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Reprodução/iStock

Reprodução/iStock

Entre 2008 e 2015, um homem aparentemente saudável realizou a doação de esperma a um banco europeu, como tantos outros fazem. O material genético foi utilizado por 47 famílias e resultou no nascimento de 67 crianças em oito países diferentes da Europa.

Durante anos, não houve qualquer sinal de irregularidade. Até que um padrão começou a emergir: diversas crianças concebidas com o esperma do mesmo doador começaram a desenvolver câncer.

O que parecia apenas uma coincidência levou pais, médicos e pesquisadores a uma investigação profunda, e o que descobriram chocou a comunidade científica internacional.

A mutação invisível no momento da doação

As primeiras suspeitas surgiram quando duas famílias, sem qualquer ligação entre si, procuraram as clínicas de fertilização informando que seus filhos haviam sido diagnosticados com câncer ainda na infância.

Após análise genética, os médicos perceberam que o tipo de câncer tinha origem hereditária. A conexão com o doador de esperma levou a uma reavaliação do material genético originalmente utilizado.

Na época da doação, exames genéticos de rotina não detectaram qualquer risco relevante. Isso porque a mutação presente no gene TP53 ainda não era amplamente reconhecida como perigosa.

Hoje, sabe-se que esse gene é fundamental para controlar a multiplicação celular. Quando sofre uma alteração, como no caso do doador, ele perde a capacidade de impedir o crescimento desordenado de células, o que facilita o aparecimento de diversos tipos de câncer.

A síndrome de Li-Fraumeni e a ameaça hereditária

A mutação descoberta nos testes pós-doação está diretamente ligada à síndrome de Li-Fraumeni, uma condição hereditária rara, mas extremamente agressiva, que aumenta drasticamente a predisposição ao câncer desde a infância.

Entre as 67 crianças concebidas, a mutação foi identificada em 23 delas. Dessas, ao menos 10 já desenvolveram câncer, incluindo casos de leucemia e linfoma não Hodgkin.

A mutação não estava em todo o esperma do doador, mas em parte dele, o que indica um fenômeno genético conhecido como mosaicismo. Isso significa que nem todos os espermatozoides do doador continham a mutação, tornando a triagem ainda mais complexa e exigindo tecnologias de detecção que, na época da doação, simplesmente não estavam disponíveis.

Famílias entre o choque e o luto

O impacto da descoberta foi devastador para as famílias. Muitas delas recorreram à fertilização in vitro por não conseguirem engravidar naturalmente, depositando no tratamento toda a esperança de formar uma família.

Anos depois, enfrentam a dor de ver os filhos adoecerem precocemente, com doenças graves e tratamento intensivo. A angústia é causada pela percepção de que a tragédia poderia ter sido evitada com protocolos mais rigorosos.

As crianças afetadas estão recebendo acompanhamento médico constante, passando por exames genéticos e rastreamento oncológico desde cedo. O medo de que novos casos surjam entre os filhos saudáveis gerados com o mesmo esperma é uma realidade que assombra essas famílias.

A crítica à fragilidade das leis internacionais

O caso levantou um intenso debate sobre a regulamentação das doações de esperma, especialmente no contexto internacional. As regras para uso de material genético variam bastante entre os países da Europa.

Em alguns locais, há um limite de até 10 nascimentos por doador. Em outros, esse número chega a 15. Ainda assim, como bancos de esperma atuam de forma internacional, o mesmo material pode ser exportado e utilizado em diversos países, escapando dos controles de natalidade por região.

Esse cenário permitiu que o esperma contaminado fosse distribuído para oito países distintos, afetando dezenas de famílias sem qualquer mecanismo centralizado de rastreamento.

A ausência de uma base de dados genética comum e a falta de controle sobre a circulação internacional de amostras são apontadas por especialistas como falhas estruturais que precisam ser corrigidas com urgência.

Especialistas pedem reformulação global

Durante uma conferência em Rouen, na França, especialistas em genética e reprodução assistida foram enfáticos: é necessário revisar os critérios de triagem de doadores, além de criar regras mais rígidas para exportação e compartilhamento de material genético entre países. Recomendações incluem:

  • Atualização constante dos exames genéticos aplicados a doadores, com reanálises periódicas à medida que novas descobertas científicas surgem.
  • Criação de um sistema de rastreamento internacional de amostras, para evitar dispersão excessiva de esperma de um único doador.
  • Redução no número máximo de nascimentos por doador, especialmente em contextos internacionais.
  • Ampliação da transparência dos bancos de esperma, com divulgação de possíveis mutações ou complicações posteriores ao uso.

A fertilização assistida é uma das maiores conquistas da medicina moderna. Mas esse caso mostra que, sem protocolos robustos, o progresso pode gerar riscos graves.

Quando se trata de reprodução humana, a ciência não pode ser movida apenas pela tecnologia, mas também pela responsabilidade e pela cautela.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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