Um terço das empresas que decidiram participar do novo modelo de crédito para trabalhadores formais, o consignado CLT, já enfrentou algum episódio de inadimplência.
A constatação vem de um levantamento recente da Serasa Experian e mostra que a fase inicial do chamado crédito do trabalhador está distante de uma operação fluida.
Embora o problema costume remeter à incapacidade de pagamento do funcionário, a maior parte dos casos decorre de falhas do próprio sistema, que ainda passa por ajustes.
Empresas ficam inadimplentes após aderirem o consignado CLT
O consignado CLT foi criado para ampliar o alcance do crédito com desconto em folha além do funcionalismo público.
A proposta é permitir que empregados com carteira assinada, trabalhadores domésticos, rurais, de aplicativos e microempreendedores individuais tenham acesso a empréstimos com juros mais baixos, contratados diretamente pela Carteira de Trabalho Digital.
Nesse arranjo, o banco oferece as condições, o trabalhador escolhe onde contratar e a empresa recebe a obrigação de registrar o vínculo e processar o desconto mensal, limitado a 35 por cento da remuneração.
A mudança altera um hábito de décadas. Antes, o crédito consignado privado só funcionava quando havia um convênio formal entre a empresa e a instituição financeira. O empregador definia rotinas de repasse, conciliava valores e comunicava ao banco qualquer alteração na folha.
Agora, esse fluxo deixou de existir e foi substituído por uma engrenagem digital que depende da atualização correta dos dados no Emprega Brasil, da integração com o eSocial e do acesso das instituições a essas informações via Dataprev.
Qualquer falha nesse processo se converte em inconsistência no desconto do consignado CLT, o que acaba registrado como inadimplência.
Inadimplência no consignado CLT pode ser causada por erros de comunicação
É exatamente nesse ponto que as empresas têm tropeçado. Segundo o estudo, a maioria das ocorrências está ligada a erros de comunicação entre os setores de recursos humanos e os bancos, além de falhas de integração que atrasam ou impedem a confirmação do desconto.
Como qualquer instituição financeira agora pode ofertar crédito a qualquer empresa, o volume de operações cresceu rápido demais para um sistema que ainda está sendo compreendido pelos empregadores.
Empresas médias aparecem entre as mais impactadas, mas o problema se espalha por diferentes regiões e setores.
As distorções iniciais também pressionaram os juros. Como os bancos passaram a lidar com tomadores de perfil desconhecido e com mais risco operacional, a taxa média subiu desde o lançamento do programa.
A expectativa do mercado é que esse cenário se estabilize nos próximos meses, à medida que os RHs se acostumem às novas rotinas e o sistema ganhe previsibilidade. O avanço das garantias, como o uso do FGTS, ainda em discussão, pode ajudar a reduzir essa percepção de risco.





