A discussão sobre o funcionamento do comércio aos domingos voltou ao centro do varejo brasileiro após uma decisão adotada por um dos maiores nomes do setor supermercadista no país.
O empresário Pedro Lourenço de Oliveira passou a defender publicamente o fechamento das lojas aos domingos como forma de reorganizar o trabalho, reduzir a rotatividade de funcionários e melhorar as condições no setor.
A medida já está em prática em parte de sua rede e vem sendo acompanhada de perto por outras empresas e entidades do comércio.
Mudança operacional no Espírito Santo
Desde o dia 1º de março, as 44 unidades do Supermercados BH no Espírito Santo deixaram de funcionar aos domingos. A decisão foi implementada com base em uma convenção coletiva estadual firmada anteriormente e marca uma mudança significativa na rotina do varejo alimentar da região.
A iniciativa tem como principal justificativa a tentativa de enfrentar dois problemas históricos do setor: a dificuldade de contratação e a alta rotatividade de funcionários.
Segundo representantes do comércio, o trabalho aos domingos é um dos principais fatores de desmotivação entre trabalhadores do varejo, o que leva a um fluxo constante de admissões e desligamentos.
Mudança no comportamento do consumidor
Com o fechamento das lojas aos domingos, o comportamento dos consumidores também passou por ajustes. As compras, que antes eram distribuídas ao longo do fim de semana, passaram a se concentrar principalmente às sextas-feiras e sábados.
Além disso, o avanço de alternativas como pequenas padarias, mercados de bairro e o crescimento do comércio eletrônico tem reduzido o impacto da ausência dos grandes supermercados aos domingos, algo que há décadas teria gerado maior resistência por parte da população.
Debate sobre escala de trabalho e custos
Apesar de defender o fechamento aos domingos, Pedro Lourenço de Oliveira tem adotado um tom cauteloso em relação a outras mudanças trabalhistas em discussão no país, especialmente sobre o fim da escala 6×1.
Segundo o empresário, qualquer redução de jornada sem flexibilidade pode gerar aumento de custos operacionais, o que acabaria sendo repassado ao consumidor final.
Atualmente, a rede enfrenta cerca de 4.000 vagas abertas sem preenchimento, o que reforça o desafio de mão de obra no setor. A automação de funções como reposição e açougue ainda é limitada, mantendo alta dependência do trabalho humano.
Modelos alternativos de jornada no varejo
Enquanto algumas empresas adotam o fechamento aos domingos, outras redes testam modelos diferentes de escala para equilibrar produtividade e qualidade de vida dos trabalhadores:
- Escala 5×2: Adotada por grandes grupos varejistas no Espírito Santo, com dois dias de folga semanais fixos
- Escala 12×36: Utilizada em setores específicos para equilibrar longos turnos com períodos maiores de descanso
- Ajustes híbridos: Combinando folgas rotativas com reforço de equipes em dias de maior movimento
Esses modelos refletem uma tentativa do setor de se adaptar a um cenário de escassez de mão de obra e mudanças no comportamento do consumidor.
O debate sobre o funcionamento dos supermercados aos domingos expõe um cenário mais amplo de transformação no varejo brasileiro.
De um lado, empresas buscam eficiência operacional e estabilidade na força de trabalho. De outro, consumidores estão cada vez mais habituados a formatos alternativos de compra e conveniência digital.
A experiência em andamento no Espírito Santo segue como um “laboratório” para o setor, que avalia até que ponto o fechamento pode se tornar uma tendência nacional ou permanecer como uma estratégia regional adaptada a realidades específicas.





