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Diagnóstico de superdotação não tem a ver com QI alto

Por Leticia Florenço
04/08/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Superdotação - Reprodução/iStock

Superdotação - Reprodução/iStock

Imagine viver em um mundo que anda devagar demais para a sua mente.

Onde as perguntas que você faz são tratadas como incômodas. Onde seu entusiasmo é confundido com arrogância, sua sensibilidade é taxada de exagero e sua necessidade de sentido é vista como desobediência. Assim é, para muitas pessoas, a experiência de ser superdotado.

Não é só sobre QI

Durante décadas, acreditou-se que superdotação era sinônimo de inteligência acima da média, medida por testes de QI. Essa crença, tão difundida quanto equivocada, reduziu uma condição multifacetada a um número. E números, como já aprenderam as próprias crianças superdotadas, nunca contam a história inteira.

Superdotação não é um troféu. É uma forma diferente de existir no mundo. Uma forma de sentir mais, pensar mais, processar mais e, muitas vezes, sofrer mais. Trata-se de uma condição do neurodesenvolvimento, que pode se manifestar em áreas diversas, com padrões que desafiam a lógica comum.

Entre o excesso e a solidão

Quem vive a superdotação sabe que ela não vem com manual de instruções, nem para quem a possui, nem para quem está ao redor. A criança superdotada pode ser aquela que aprende a ler sozinha aos três anos, mas se recusa a fazer lições repetitivas.

Pode ser aquela que resolve problemas complexos, mas entra em colapso emocional diante de um erro mínimo.

O que parece facilidade intelectual esconde uma intensidade emocional que, sem apoio, torna-se sobrecarga. A autocobrança sufoca. A falta de escuta adoece. E a escola, em vez de ser refúgio, se torna labirinto.

Sala de aula

É na escola que muitos superdotados enfrentam o primeiro grande obstáculo. Não porque não aprendem, mas porque aprendem diferente. E rápido. Tão rápido que se entediam, questionam, desafiam os métodos e, por isso, são tachados como “difíceis”. Em vez de acolhimento, encontram resistência.

A aceleração escolar é um direito previsto em lei, mas na prática é frequentemente negado. Faltam profissionais capacitados, faltam diagnósticos precoces, faltam olhos atentos que enxerguem o que está além do comportamento.

Enquanto isso, mães e pais percorrem escolas, laudos, psicólogos, tentando provar que o filho que “incomoda” na verdade está pedindo espaço para crescer.

Um cérebro em alta voltagem

Do ponto de vista neurológico, o cérebro de uma pessoa superdotada funciona com intensidade incomum. A atividade metabólica é mais rápida. A percepção é mais aguda. A memória, mais expansiva. Mas isso não vem sozinho. Vem com hipersensibilidade a sons, luzes, cheiros. Vem com insônia. Vem com angústias existenciais aos seis, sete anos de idade.

Superdotação não é sobre tirar nota 10. É sobre viver com uma mente que nunca para e, muitas vezes, não encontra eco. O custo de não ser compreendido é alto: isolamento, frustração, ansiedade, depressão.

A lei que não chega na prática

Desde 2013, a legislação brasileira reconhece os superdotados como parte do público da educação especial. Eles têm direito ao atendimento educacional especializado, à aceleração de série, à inclusão nas salas regulares. Mas direitos na lei nem sempre se traduzem em realidade. A estrutura falha. A formação de professores é insuficiente. A burocracia trava os avanços.

Além disso, a legislação atual contempla apenas escolas públicas, deixando desassistida uma quantidade expressiva de alunos na rede privada, onde o problema da invisibilidade é ainda maior.

A sociedade está preparada para acolher dificuldades visíveis. Mas a superdotação é disfarçada. Pode vir com agitação, hiperfoco, apatia ou irritabilidade. Muitas vezes, ela se camufla entre diagnósticos errados ou no silêncio de crianças que aprenderam a se esconder para se proteger.

Mais comum do que se imagina, a superdotação pode estar ao lado, naquele aluno inquieto, naquele adulto que sempre se sentiu “deslocado”, naquela criança que pergunta “por que o tempo existe?”. Para enxergá-la, é preciso deixar de buscar apenas o “gênio” e começar a olhar para os detalhes.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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