A variação no comportamento paterno entre mamíferos ainda é um campo pouco explorado pela ciência. Apenas cerca de 5% das aproximadamente 6 mil espécies conhecidas apresentam participação ativa dos machos no cuidado com as crias, o que torna os mecanismos biológicos envolvidos nesse processo menos compreendidos do que aqueles relacionados ao cuidado materno.
Nesse contexto, um estudo publicado em 18 de fevereiro de 2026 na revista Nature investigou como fatores genéticos e sociais podem influenciar a conduta paterna. A pesquisa teve como modelo o rato-listado-africano, espécie na qual os machos apresentam comportamentos contrastantes que vão desde proteção ativa até agressão contra as próprias crias.
Genética do comportamento
Os experimentos indicaram que o ambiente social é determinante: machos criados em isolamento demonstraram mais cuidado, enquanto aqueles mantidos em grupos densos apresentaram maior hostilidade e infanticídio, diferença atribuída às condições sociais.
A análise neurobiológica apontou a área pré-óptica medial, ou MPOA, como centro da regulação do comportamento paterno, com maior atividade nos machos cuidadores. Dentro dessa região, destacou-se a atuação do gene Agouti. Os pesquisadores observaram que:
- níveis elevados de expressão do Agouti estavam associados a menor cuidado e maior agressividade;
- o gene, tradicionalmente ligado à pigmentação e ao metabolismo, desempenha também papel comportamental.
Para testar essa relação, a equipe aumentou artificialmente a expressão do Agouti na MPOA por meio de vetor viral. Após a manipulação:
- machos anteriormente tolerantes passaram a exibir comportamento agressivo;
- houve aumento de episódios de infanticídio.
Além das descobertas
Os dados sugerem que o Agouti pode funcionar como um “interruptor” molecular, integrando sinais ambientais, especialmente fatores sociais como densidade populacional e competição, e modulando a resposta entre cuidado e agressão.
Apesar das descobertas, os autores ressaltam que o gene não atua de forma isolada e que fatores sociais continuam sendo determinantes. Também alertam que, embora o Agouti e a MPOA estejam presentes em outros mamíferos, incluindo humanos, não há evidências de que o comportamento paternal humano seja controlado pelos mesmos processos.






