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Comunidade devastada por previsão que ninguém levou a sério

Por Leticia Florenço
15/10/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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Reprodução/NSC Total

Reprodução/NSC Total

O avanço da maré de 1,4 metro que atingiu o Canto Sul da praia dos Ingleses, uma das mais movimentadas de Florianópolis, na última segunda-feira (6), deixou um rastro de destruição difícil de ignorar.

Um muro de 12 casas foi destruído, cinco postes de iluminação pública ficaram comprometidos e cerca de 300 metros da orla foram completamente arrasados.

O que torna o episódio ainda mais grave é que esse desastre era previsto há mais de dois anos, mas os alertas emitidos por estudos técnicos foram ignorados ou minimizados.

Estudos prévios alertaram sobre riscos graves

A Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) publicou duas notas técnicas, N° 06/PES/2023 e N°05/PES/2025, que chamavam atenção para os perigos do alargamento artificial da praia, realizado entre janeiro e maio de 2023.

As pesquisas mostraram que obras de aterro em praias, embora pareçam ampliar a faixa de areia temporariamente, alteram de forma drástica a dinâmica natural das marés e intensificam a erosão, colocando edificações e moradores em risco.

Como o alargamento se tornou um problema

O projeto aumentou a faixa de areia em 2,8 km, elevando trechos que antes tinham até 20 metros para 35 metros. A técnica utilizada, alimentação artificial, envolveu dragagem de cerca de 500 mil m³ de areia de uma jazida submarina próxima.

Apesar do alto investimento, de R$ 18,8 milhões, e da promessa de proteção costeira, o resultado foi justamente o contrário, com praias mais íngremes, correntes de retorno e ondas fortes próximas às construções, favorecendo acidentes e afogamentos.

Consequências sociais e ambientais

O estudo de maio de 2025 revelou que o alargamento não atingiu os objetivos do projeto e trouxe impactos negativos. Houve aumento de 140% nos casos de afogamento na praia dos Ingleses, reflexo da formação de barrancos de areia e ondas que quebram próximo à faixa artificial.

Para os moradores, o desastre se traduz em perdas materiais e riscos diários, enquanto o ecossistema local sofre alterações irreversíveis.

Falhas na execução e no planejamento

O professor da UFSC, Paulo Horta, condenou o projeto como um “investimento equivocado”, destacando que os estudos não consideraram a circulação costeira, o comportamento dos sedimentos, os impactos ambientais e sociais.

O oceanógrafo Pedro de Souza Pereira ressaltou que a ausência de dunas e restinga, barreiras naturais contra a força do mar, agravou o problema. Sem essas estruturas, qualquer aumento no nível da água atinge diretamente construções e calçadões.

Medidas emergenciais e soluções futuras

Após a destruição, a Prefeitura de Florianópolis decretou emergência para agilizar reparos e mobilizar voluntários. Entre as medidas emergenciais, está a manutenção da faixa de areia e avaliação de novos elementos de proteção, como dunas artificiais ou elevação do perfil da praia.

Especialistas sugerem que a abordagem deve ir além da engenharia tradicional, tratando o alargamento como restauração ecossistêmica, respeitando o histórico de ressacas e a dinâmica natural das marés.

Lições para o futuro

O desastre nos Ingleses evidencia como a negligência com previsões técnicas e a pressa por obras de infraestrutura podem transformar projetos caros em riscos públicos.

A tragédia reforça a necessidade de estudos mais profundos, políticas de proteção ambiental e planejamento urbano integrado, para que alertas científicos não se tornem apenas documentos ignorados, mas instrumentos de prevenção real.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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