Uma decisão recente da Anvisa interrompeu a fabricação, importação e registro de produtos cosméticos que contenham duas substâncias usadas principalmente em esmaltes em gel, o TPO e o DMPT.
O motivo não é estético, mas de saúde pública. Pesquisas internacionais associaram esses componentes a riscos como infertilidade e até câncer, levando o órgão regulador a agir de forma preventiva.
O que são essas substâncias químicas?
O TPO (óxido de difenil fosfina) e o DMPT (N,N-dimetil-p-toluidina) são substâncias usadas para fazer o esmalte em gel endurecer quando exposto à luz ultravioleta ou LED.
Elas atuam como fotoiniciadoras, permitindo a secagem rápida e a durabilidade do produto, o que faz o esmalte em gel ser favorito de muitas pessoas pela praticidade e resultado final brilhante.
Embora estejam mais presentes em esmaltes em gel, também podem ser encontrados em alguns tipos de maquiagens, colas cosméticas e até em materiais odontológicos, como resinas para obturações.
Infertilidade
O TPO é o maior foco de alerta quando o assunto é fertilidade. Estudos internacionais feitos em animais demonstraram resultados preocupantes. Em ratos fêmeas, a exposição ao TPO levou à infertilidade completa.
Em ratos machos, foram observadas alterações diretamente nos testículos, incluindo diminuição do tamanho e redução drástica na produção de espermatozoides.
Essas descobertas sugerem que a substância possui potencial para afetar a função reprodutiva de forma grave, ao interferir na produção hormonal e no funcionamento adequado dos órgãos reprodutivos.
Na União Europeia, o TPO já é oficialmente classificado como “cancerígeno, mutagênico ou tóxico para a reprodução”, e o seu uso está proibido desde setembro.
DMPT
Enquanto o TPO preocupa pela infertilidade, o DMPT preocupa pelo risco de câncer. Durante o processo de secagem do esmalte em gel, quando a substância reage com a luz UV ou LED, ela pode liberar vapores tóxicos.
Esses vapores podem ser inalados, ou até absorvidos pela pele, e o perigo está justamente aí: o DMPT é capaz de provocar danos no DNA das células. A agressão ao DNA é um dos caminhos mais conhecidos para o desenvolvimento de câncer.
Especialistas ressaltam que esse risco aumenta ainda mais em ambientes pouco ventilados, um cenário comum em alguns salões de beleza.
Nem tudo que tem “gel” no nome contém as substâncias
Um detalhe importante é que nem todo produto com o termo “gel” contém TPO ou DMPT. Alguns top coats com efeito gel e outras linhas de esmaltação usam esse termo apenas como estratégia comercial.
Por isso, mesmo com a proibição, é essencial que consumidores e profissionais fiquem atentos aos rótulos e fichas técnicas dos produtos.
Embora os estudos não tenham sido feitos diretamente em humanos, os resultados encontrados em animais foram suficientemente alarmantes. A Anvisa decidiu agir por precaução, o que significa que preferiu interromper o uso dessas substâncias antes que danos sejam constatados em pessoas.
Nos bastidores, a lógica é simples: se há indícios concretos de risco à fertilidade e ao DNA celular, não faz sentido esperar anos até que estudos em humanos confirmem esses efeitos.
E quem já usou esmalte em gel? Deve se preocupar?
Para quem realizou o procedimento ocasionalmente, os especialistas e a Anvisa afirmam que o risco é baixo.
A preocupação maior está na exposição repetida e prolongada, especialmente para manicures e profissionais de estética que lidam com esses produtos diariamente e por longos períodos, muitas vezes em locais fechados.
A exposição constante aos vapores tóxicos e ao contato com essas substâncias aumenta a chance de absorção pelo organismo.
A Anvisa determinou a proibição da fabricação e importação imediata de produtos com TPO ou DMPT. A partir dessa decisão, o comércio tem 90 dias para retirar os esmaltes em gel com essas substâncias das prateleiras.
Depois do prazo, os registros desses produtos serão cancelados e as empresas terão que recolher os itens remanescentes.





