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Cientistas editam gene e abrem caminho para eliminar colesterol alto

Por Leticia Florenço
15/11/2025
Em Colunas, Mais Tendências
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CRISPR - Reprodução/iStock

CRISPR - Reprodução/iStock

Cientistas deram um passo decisivo rumo à erradicação do colesterol alto. Um novo estudo publicado no New England Journal of Medicine revelou que, com apenas um corte preciso em um gene, é possível reduzir de forma permanente os níveis perigosamente elevados de colesterol LDL, o chamado “colesterol ruim”.

Essa inovação utiliza a tecnologia CRISPR-Cas9, uma espécie de “tesoura molecular” capaz de modificar genes humanos com extrema precisão.

O experimento pioneiro foi conduzido em 15 pacientes com doenças cardíacas graves e já apresentou resultados com redução média de 50% no colesterol LDL e 55% nos triglicerídeos após uma única infusão do medicamento experimental.

Como o CRISPR transforma o DNA humano

A técnica CRISPR-Cas9 atua como um editor de texto genético: ela localiza um trecho específico do DNA e o corta, permitindo que o gene seja modificado, ativado ou desativado.

No caso deste estudo, os cientistas desativaram o gene ANGPTL3 (proteína 3 semelhante à angiopoietina), responsável por regular a produção de lipídios no organismo. A desativação desse gene reduz naturalmente o LDL e os triglicerídeos, duas substâncias fortemente associadas às doenças cardiovasculares.

A inspiração veio da própria natureza: pessoas que nascem com uma mutação natural nesse gene apresentam colesterol e triglicerídeos muito baixos durante toda a vida, sem apresentar efeitos colaterais conhecidos. Agora, os pesquisadores estão tentando reproduzir esse mesmo efeito protetor de forma terapêutica.

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Segundo o Dr. Steven Nissen, diretor do Instituto Cardíaco, Vascular e Torácico da Cleveland Clinic, a proposta é criar uma terapia única, de aplicação única, que mantenha o colesterol controlado para sempre.

Isso significaria o fim da dependência de medicamentos diários, como as estatinas, e o fim da dificuldade de adesão a tratamentos prolongados, um problema que afeta milhões de pessoas no mundo.

“Esperamos que esta seja uma solução permanente”, afirmou Nissen. “Há quinze anos, pensar nisso pareceria ficção científica.”

A cardiologista Ann Marie Navar, da Universidade do Texas, reforçou o impacto dessa inovação: “Se um jovem de 20 anos com colesterol hereditariamente alto pudesse fazer um tratamento único e nunca mais precisar de comprimidos, o potencial disso seria gigantesco.”

A doença mais comum e o maior desafio médico

As doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no planeta. Mesmo com dietas e medicamentos modernos, muitos pacientes não conseguem atingir o nível ideal de colesterol LDL entre 40 e 50 mg/dL.

Além disso, a adesão aos tratamentos é baixa, muitos interrompem o uso das medicações por esquecimento, custo ou efeitos colaterais.

A possibilidade de um tratamento definitivo, capaz de ajustar o metabolismo do colesterol de forma genética, representa um dos maiores avanços da medicina moderna e um passo crucial no combate à principal causa de mortalidade global.

Resultados promissores do estudo piloto

O estudo testou diferentes doses do medicamento baseado em CRISPR, que foi administrado por infusão. Os resultados mostraram que:

  • A dose mais alta (0,8 mg/kg) reduziu o colesterol LDL em cerca de 50% e os triglicerídeos em 55%;
  • Houve também uma leve queda no HDL (“colesterol bom”), efeito já observado em pessoas com a mutação natural e considerado inofensivo;
  • Os efeitos colaterais foram mínimos, limitando-se a irritações leves no local da aplicação e pequenas alterações hepáticas temporárias;
  • Um participante faleceu meses depois, mas sem relação com o tratamento, ele apresentava doença cardíaca avançada e recebeu a dose mais baixa, sem efeito terapêutico.

Esses resultados reforçam o perfil de segurança e o potencial de eficácia do método, embora ainda seja cedo para conclusões definitivas.

Segurança genética

O novo tratamento atua apenas nas células do fígado, onde ocorre a síntese e regulação dos lipídios. Isso reduz o risco de edições indesejadas em outras partes do corpo, como músculos ou pulmões, tornando o método mais seguro a longo prazo.

Segundo os pesquisadores, a escolha do fígado como alvo foi fundamental: é nele que o colesterol é produzido e eliminado, e é também o órgão mais acessível para terapias baseadas em RNA e DNA.

O caminho até a aprovação

O próximo passo será a realização de ensaios clínicos de Fase 2, com número maior de participantes, seguidos pelos ensaios de Fase 3, que testarão a eficácia em populações amplas e diversas. Essas fases são cruciais para confirmar a segurança e a durabilidade dos efeitos antes da liberação comercial.

“Esperamos concluir essas etapas até o fim do próximo ano”, afirmou Nissen. “A necessidade médica é imensa, e há milhões de pessoas com colesterol alto que ainda não recebem tratamento adequado.”

Um futuro sem colesterol alto?

Se confirmada sua eficácia, essa terapia gênica poderá redefinir o conceito de medicina preventiva. Em vez de tratar os sintomas de um metabolismo desregulado, os médicos poderão reprogramar o corpo para produzir apenas as quantidades ideais de colesterol e gordura, eliminando o risco de doenças cardíacas antes mesmo de elas aparecerem.

Com o avanço das pesquisas, a edição gênica se consolida não apenas como uma ferramenta de cura, mas como uma forma de reescrever a própria biologia humana.

Um tratamento único, seguro e permanente contra o colesterol alto pode ser o primeiro passo para uma nova era da medicina, em que genes defeituosos deixem de ser destino e passem a ser apenas uma variável ajustável da vida.

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Leticia Florenço

Leticia Florenço

Filha da Terra da Luz, jornalista pela Universidade de Fortaleza (Unifor).

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