A biotecnologia brasileira dá um passo adicional no aproveitamento da pele de peixes ao incorporar a tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) a tratamentos oftalmológicos veterinários. Após o êxito no uso do material para queimaduras humanas, pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificaram seu potencial na produção de um biotecido destinado à recuperação de cães com úlceras e lesões graves na córnea — condições que podem resultar em perda importante da visão.
Segundo a Revista Pesquisa Fapesp, essa nova aplicação foi desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Faculdade de Medicina da UFC (NPDM-UFC), referência nacional em estudos com biomateriais de origem animal.
Pele de peixe para recuperar a visão
A pesquisa integra um esforço de quase dez anos dedicado a explorar as propriedades estruturais e terapêuticas da pele de tilápia, especialmente seu alto teor de colágeno tipo I, fundamental para a cicatrização. Para uso oftalmológico, a pele passa por um rigoroso processamento, que remove escamas, células e impurezas, preservando apenas a matriz colágena.
Dessa base é produzida uma membrana fina e translúcida, aplicada como enxerto em cirurgias destinadas ao tratamento de lesões corneanas em cães, atuando como suporte temporário que protege a região, reduz a dor e acelera a regeneração e a reepitelização da córnea.
À Pesquisa Fapesp, a veterinária Mirza Melo, coordenadora do estudo, afirmou que mais de 400 animais foram tratados com a técnica nos últimos quatro anos. Segundo ela, a membrana funciona como um “arcabouço” que libera colágeno gradualmente, favorecendo a cicatrização, diminuindo a necessidade de novos procedimentos e reduzindo o risco de complicações pós-operatórias.
Tratamentos
Atualmente, clínicas e hospitais veterinários contam com membranas biológicas importadas, geralmente derivadas de tecidos bovinos ou suínos. No entanto, o preço elevado e a necessidade de aquisição externa acabam restringindo o acesso a esses materiais.
Nesse contexto, a membrana desenvolvida no Brasil a partir da tilápia-do-nilo surge como uma solução mais viável, oferecendo redução de custos, maior disponibilidade e produção nacional. Além disso, o biomaterial atende às necessidades de pesquisa e inovação em saúde animal, fortalecendo a autonomia científica e tecnológica do país.





