O manganês, antes conhecido apenas como elemento essencial para a fabricação de aço, tornou-se um mineral estratégico para o futuro da energia limpa. Com o avanço global dos carros elétricos, o metal passou a ter novo valor, sendo usado na produção de baterias de alto desempenho.
Países que controlam reservas de manganês têm vantagem econômica e tecnológica, e o Brasil está entre eles. O problema é que, apesar de possuir a quarta maior reserva do mundo, o país não consegue proteger esse patrimônio.
Riqueza no solo, despreparo na fiscalização
No sudeste do Pará, onde se concentra a maior parte do manganês brasileiro, o minério emerge da superfície. É fácil de identificar e, infelizmente, fácil de ser explorado ilegalmente. Garimpeiros entram, máquinas são montadas e toneladas de manganês são removidas sem qualquer tipo de controle.
Estimativas do setor apontam que pelo menos 30% de toda a produção nacional já está nas mãos do garimpo ilegal, um nível alarmante de perda do controle estatal sobre um recurso estratégico.
Nos bastidores das mineradoras, os relatos se repetem: invasões frequentes, ameaças armadas e perda de reservas inteiras. Em casos recentes, garimpeiros ocuparam áreas privadas por meses e retiraram até 10% das reservas de uma única empresa, sem que nenhuma ação efetiva fosse realizada para impedir.
Vigilantes foram expulsos, e complexos de extração legal simplesmente perderam o controle sobre suas próprias terras. A fiscalização oficial não dá conta, faltam equipes, infraestrutura e presença permanente.
Violência, criminalidade e lavagem de dinheiro
O garimpo ilegal deixou de ser uma atividade improvisada. Hoje, é uma operação organizada com logística própria: máquinas entram nas áreas de extração, o minério é transportado em caminhões e entregue a empresas que revendem para o mercado interno ou exportam clandestinamente.
Para “esquentar” o produto, algumas empresas declaram que o manganês veio de áreas com licença minerária. Assim, a parte ilegal se mistura com a legal. É crime ambiental, é evasão fiscal e também lavagem de dinheiro.
Famílias inteiras transformam-se em organizações criminosas especializadas nesse tipo de operação.
Cidades que respiram garimpo
Em municípios como Marabá, Parauapebas e Curionópolis, o garimpo ilegal já faz parte do cotidiano. Hipermercados, lojas de máquinas pesadas e até postos de gasolina se beneficiam do fluxo de dinheiro.
Existem bairros dominados por garimpeiros, e a força política deles cresce a cada eleição. Vereadores e lideranças locais são eleitos com apoio financeiro dessas redes. O crime, lucrativo e protegido por influências políticas, se entranhou nas estruturas sociais e institucionais.
Enquanto o garimpo avança, o mercado formal de mineração encolhe. Grandes mineradoras recuaram, fecharam operações ou venderam suas reservas. A Vale, por exemplo, abandonou projetos de manganês e vendeu parte de seus ativos.
A maior mineradora de manganês da América do Sul, a Buritirama, entrou em falência em 2023. A produção brasileira despencou de mais de três milhões de toneladas em 2008 para pouco mais de meio milhão em 2024. O garimpo ilegal minou a competitividade das operações legais.
Perda de valor e desperdício de oportunidade
O manganês bruto vendido por garimpeiros vale pouco. Na siderurgia, o valor é de aproximadamente R$ 300 por tonelada. Já o sulfato de manganês, usado em baterias de veículos elétricos, pode ultrapassar R$ 4.000 por tonelada.
A ilegalidade impede o Brasil de refinar o minério e capturar esse valor agregado. Em vez de se posicionar como fornecedor estratégico para o setor de energia limpa, o país segue repassando riqueza bruta e importando tecnologia.
O Brasil tem nas mãos um recurso estratégico para liderar a transição energética global. Mas, enquanto o garimpo ilegal atua com velocidade e organização, o país perde riqueza, perde competitividade e perde a chance de se tornar referência no mercado de baterias.
O manganês poderia impulsionar inovação, empregos qualificados e desenvolvimento econômico sustentável.






